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sexta-feira, novembro 04, 2011

Alterações Climáticas e Austeridade



No último Eurobarómetro sobre a percepção pública das alterações climáticas(1), os portugueses são os que menos revelam preocupação com este problema - apenas 7% consideram-no o problema mais grave que o mundo enfrenta. Em contrapartida, a situação económica é apontada por 25% dos respondentes como o problema mais sério - um aumento em relação aos 10% do inquérito de 2009.
É natural que assim seja. No entanto, esta crise económica tem subjacentes raízes bem mais profundas do que as frequentemente citadas e boa parte delas cruzam-se com a problemática das alterações climáticas. Aliás, vários dos problemas citados pelo Eurobarómetro: situação económica; pobreza, fome e disponibilidade de água potável; disponibilidade de energia; etc. estão subjacentes às razões pelas quais as Alterações Climáticas são consideradas como um problema muito sério.

Os dirigentes políticos europeus têm a noção, mais ou menos consciente, de que a recuperação económica não pode passar por um estímulo económico keynesiano tradicional. Este estímulo, nas actuais condições limite dos mercados energéticos e de recursos naturais em geral, conduziriam, nomeadamente, ao disparo dos preços do petróleo, e a nova recessão. Estes caíram drasticamente com a recessão de 2008, mas apesar dos actuais dados económicos negativos, os preços continuam elevados (2) . Isto não nos deveria surpreender. Afinal, embora tenha passado largamente ignorado, a Agência Internacional de Energia reconheceu – ainda que subtilmente - no World Energy Outlook de 2010 que o pico de produção mundial de petróleo convencional terá ocorrido em 2006(3) . Infelizmente, as políticas seguidas não têm sido no sentido da sustentabilidade, mas sim de uma fuga para a frente. São exemplo disso o incentivo aos agrocombustíveis, a exploração de areias betuminosas (petróleo embebido), a expansão do carvão como fonte de energia, etc. Qualquer destas “soluções” agrava o problema das alterações climáticas cuja evolução se afigura preocupante num contexto de “business as usual”(4) , e não resolve o problema económico: energia e alimentos mais caros.
É neste contexto que Kevin Anderson, ex-director do Centro Tyndall para as Alterações Climáticas, num artigo publicado na Philosophical Transactions of the Royal Society(5) , sugere a necessidade de uma austeridade planeada, incompatível com o crescimento económico nos países desenvolvidos(6), enquanto se implementa a transição para uma economia “descarbonizada” (pouco dependente de combustíveis fósseis).
As consequências das alterações climáticas são já bem vísiveis e com repercussões bem claras sobre a economia (por exemplo, pela via da dispersão do risco associado a catástrofes naturais via resseguradoras). Existem portanto razões prementes para a implementação de uma “austeridade”. No entanto, a austeridade actual está a ser implementada pelas razões erradas, porque é injusta e porque não enfrenta uma das raízes do problema: uma economia desregulamentada onde o sector financeiro é claramente parasitário e desproporcionado. A austeridade necessária tem de ser sobretudo equitativa e não deve incutir medo – de perder o emprego, do direito a serviços essenciais (saúde, educação, etc.), caso contrário será um fracasso, a todos os níveis.

(1) http://ec.europa.eu/public_opinion/archives/ebs/ebs_372_en.pdf

(2) http://www.telegraph.co.uk/finance/newsbysector/energy/oilandgas/8844260/Why-is-the-oil-price-still-so-high.html

(3) WEO 2010 pág. 6 do Sumário Executivo : "Crude oil output reaches an undulating plateau of around 68-69 mb/d by 2020 but never regains its all-time peak of 70 mb/d reached in 2006"

(4) The Copenhagen Diagnosis - updating the world in the latest climate science «The report also notes that global warming continues to track early IPCC projections based on greenhouse gas increases. Without significant mitigation, the report says global mean warming could reach as high as 7 degrees Celsius by 2100.»

(5)
http://rsta.royalsocietypublishing.org/content/369/1934/20.short
(6)
http://environmentalresearchweb.org/cws/article/news/45239
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segunda-feira, junho 13, 2011

O movimento anti-regulação. O caso de Björn Lomborg e as alterações climáticas.

Na sequência deste "post" sobre Bjorn Lomborg, sugiro este artigo escrito no âmbito de uma cadeira de mestrado em Ciência Política e Relacões Internacionais (FCSH).Type rest of the post here. Ler mais...

segunda-feira, fevereiro 28, 2011

Racionamento de energia

Por altura da Cimeira do Clima em Cancun, surgiu uma notícia de que alguns cientistas defenderam a necessidade de promover o racionamento da energia à semelhança do ocorrido na Segunda Grande Guerra. Afirmava-se que, para reduzir as emissões de CO2 e permitir algum crescimento económico nos países pobres, os países desenvolvidos teriam que suspender o seu crescimento para os próximos 20 anos. Agora, num artigo publicado na "Philosophical Transactions of the Royal Society", Kevin Anderson, ex-director do Tyndall Centre for Climate Change da Universidade de Manchester, e Alice Bows, afirmam que as metas que têm vindo a ser fixadas nas últimas cimeiras são incoerentes com os resultados que vêm sendo fornecidos pela ciência, nomeadamente o objectivo de limitar o aquecimento global a 2ºC. Mais importante ainda, para travarmos as emissões de CO2, não é possível manter o crescimento económico o que exigirá uma "austeridade planeada". Excerto da conclusão do artigo:
«In relation to the first two issues, the Copenhagen Accord and many other highlevel policy statements are unequivocal in both their recognition of 2ºC as the appropriate delineator between acceptable and dangerous climate change and the need to remain at or below 2ºC. Despite such clarity, those providing policy advice frequently take a much less categorical position, although the implications of their more nuanced analyses are rarely communicated adequately to policy makers.
Moreover, given that it is a ‘political’ interpretation of the severity of impacts that informs where the threshold between acceptable and dangerous climate change resides, the recent reassessment of these impacts upwards suggests current analyses of mitigation significantly underestimate what is necessary to avoid dangerous climate change. Nevertheless, and despite the evident logic for revising the 2ºC threshold, there is little political appetite and limited academic support for such a revision. In stark contrast, many academics and wider policy advisers undertake their analyses of mitigation with relatively high probabilities of exceeding 2ºC and consequently risk entering a prolonged period of what can now reasonably be described as extremely dangerous climate change.
Put bluntly, while the rhetoric of policy is to reduce emissions in line with avoiding dangerous climate change, most policy advice is to accept a high probability of extremely dangerous climate change rather than propose radical and immediate emission reductions.

[...] However, given the CCC acknowledge ‘it is not now possible to ensure with high likelihood that a temperature rise of more than 2ºC is avoided’ and given the view that reductions in emissions in excess of 3–4% per year are not compatible with economic growth, the CCC are, in effect, conceding that avoiding dangerous (and even extremely dangerous) climate change is no longer compatible with economic prosperity. [...]
By contrast, the logic of such studies suggests (extremely) dangerous climate change can only be avoided if economic growth is exchanged, at least temporarily, for a period of planned austerity within Annex 1 nations and a rapid transition away from fossil-fuelled development within non-Annex 1 nations.

However, this paper is not intended as a message of futility, but rather a bare and perhaps brutal assessment of where our ‘rose-tinted’ and well intentioned (though ultimately ineffective) approach to climate change has brought us.
Real hope and opportunity, if it is to arise at all, will do so from a raw and dispassionate assessment of the scale of the challenge faced by the global community. This paper is intended as a small contribution to such a vision and future of hope.
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sexta-feira, agosto 06, 2010

Os Fogos na Rússia


A extensão dos fogos na Rússia e na Ásia Central é impressionante. Segundo a ligação da NASA, indicada acima, estendem-se por cerca de 3.000 kms. Nem o metro de Moscovo escapa ao fumo. Os puristas dirão sempre que não se devem tirar conclusões sobre este tipo de acontecimentos e a sua ligação com as alterações climáticas. Mas a verdade é que as alterações climáticas estão a ocorrer, e estão a ocorrer neste planeta, e não num mundo abstracto, e portanto é natural que se reflictam em fenómenos extremos como este, ou como nas cheias do Paquistão. O próprio presidente russo - país que tem até agora desprezado o problema - fez declarações no sentido de que não podemos continuar como até aqui. Actualização: vale a pena ler este comunicado da Organização Meteorológica Mundial a propósito da série de eventos extremos que se têm registado um pouco por todo o mundo.
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sexta-feira, dezembro 18, 2009

"Climategate"

Ver dossier sobre este assunto aqui e aqui.

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segunda-feira, setembro 14, 2009

O Degelo

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quarta-feira, junho 24, 2009

Alterações Climáticas: uma prioridade da Política

O meu contributo para o debate sobre o Programa de Governo do Bloco de Esquerda pode ser lido aqui. Ler mais...

sexta-feira, maio 01, 2009

Plataforma de Gelo de Wilkins (Antárctida)



Imagens da desintegração da Plataforma de Gelo de Wilkins obtidas por uma câmara colocada em satélite da Agência Espacial Europeia (ESA). Ler mais...

sábado, março 21, 2009

Filme: "A Idade da Estupidez"



The Age of Stupid: EPK clip 2 - Pete as the Archivist from Age of Stupid on Vimeo.
Trata-se de um filme que revela a estupidez de ignorarmos as consequências das Alterações Climáticas. Acaba de estrear no Reino Unido.
Mais sobre o filme no seu canal no Youtube e no site oficial. Podem ler esta revisão e mais esta no "Climate Progress" sobre o mesmo.
«"A Idade da Estupidez" - "The Age of Stupid" - é o novo filme do realizador Franny Armstrong (McLibel) e do produtor John Battsek (One Day In September). O actor, nomeado para o Óscar, Pete Postlethwaite é o protagonista da história que conta a vida de um homem que vive sozinho num mundo devastado, no ano 2055 e procura nos arquivos de 2008 uma resposta para a pergunta: porque é que não fomos capazes de parar o avanço das alterações climáticas quando isso era possível?» Texto retirado de aqui
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terça-feira, março 10, 2009

Eficiência Energética vs "Lobby" da Indústria



Subscreva esta petição por padrões de maior eficiência energética nos electrodomésticos e outros aparelhos.

Esta campanha está inserida no combate às Alterações Climáticas. A Europa é uma das maiores fontes da poluição que afecta o clima, e metade das emissões da Europa provêm de caldeiras, esquentadores, frigoríficos, TV's e outros aparelhos que temos nas nossas casas e outros edifícios.

Foram propostos padrões de eficiência energética mais fortes para estes produtos que reduziriam drasticamente as emissões, poupando dinheiro na electricidade e dando um exemplo ao resto do mundo do que é possível fazer. No entanto, longe dos holofotes e do escrutínio público, interesses particulares da indústria fazem lobby para evitar a aplicação destes padrões mais exigentes.
Tradução adaptada de texto retirado do "site" da AVAAZ.
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sexta-feira, fevereiro 20, 2009

Light Bulb Myth / "O Mito da Lâmpada"

"The strange consensus that the most important thing we can do to stop global warming is for individuals to make hundreds of small sacrifices, never knowing whether or not they actually make a difference.

But what really is warming the world, playing havoc with our lives and living systems, exploding markets, inflating food and fuel prices and all the rest, is the way the economic system works. It´s good for a small minority of people, for some of the time, but that´s all" in NEF

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domingo, janeiro 18, 2009

Um impostor de nome Bjorn Lomborg



Bjorn Lomborg é um dos expoentes máximos do movimento conservador anti-regulação em matéria de protecção contra riscos colocados à saúde e ao ambiente. Este movimento atingiu o cume com a chegada de George W. Bush à presidência dos EUA. Caracteriza-se por se dedicar, sobretudo através de "think tanks" (mas também, como no caso dos EUA, por intermédio de agências governamentais algo obscuras, embora influentes) , à análise custo-benefício das políticas públicas em matéria de regulamentação das actividades que afectam o ambiente, a saúde, as condições de trabalho, etc.

Lomborg é docente de estatística da Universidade de Aarhus, na Dinamarca, sendo a sua formação em ciência política. Invocando um pretenso passado de ambientalista de esquerda e de membro da Greenpeace, tornou-se famoso - com a ajuda, entre outros, do governo conservador dinamarquês através do Centro Consenso de Copenhaga e da revista The Economist (João Carlos Espada chegou praticamente a plagiar para o Expresso um artigo saído no Economist a dar grande destaque a este livro - a ideia era: vide, eis um verde - vegetariano e tudo - que reconhece que os ambientalistas são todos uns histéricos e até fornece um montão de números para prová-lo) - com a publicação do livro "O Ambientalista Céptico". Por cá, os seus artigos no Project Syndicate , têm tradução no Jornal de Negócios.

Neste livro, Lomborg dedica-se a desvalorizar os problemas ambientais, recorrendo a análises e interpretações enviesadas e a informação truncada (a que dá jeito aos seus fins), e a uma série de truques. Este livro foi objecto de queixas por cientistas dinamarqueses à Comissão de Verdade Científica de que resultou esta esclarecedora avaliação sobre a (pouca ou nenhuma) seriedade da análise de Lomborg. O livro (não o autor, por razões formais) foi acusado de desonestidade científica. Cientistas de renome: Stephen Schneider (ver tb aqui e aqui para ver de quem se trata), John P. Holdren (recém-nomeado conselheiro científico de Obama), Thomas Lovejoy, Stuart Pimm, E.O. Wilson [este designa esta obra como "The Lomborg Scam"], etc. (ver ainda aqui) pronunciaram-se sobre os temas em que são especialistas - desde a energia à biodiversidade, da demografia às alterações climáticas - abordados por Lomborg nesse livro, demonstrando a ignorância deste último. Se a ignorância fosse inocente, poderíamos desculpá-la, mas quem conheça Lomborg apercebe-se da sua arrogância ao querer determinar quem devemos ouvir e levar a sério e quem devemos ignorar, quando ele próprio não tem a mínima autoridade para sequer sugerir tais recomendações.
No entanto, Lomborg continua a ter muita audiência, a ponto de a revista Times o ter designado como uma das 100 pessoas mais influentes de 2004 - o que é deveras incrível e preocupante. Por outro lado, este sucesso pode explicar-se. Bjorn Lomborg é sem dúvida inteligente e bom em relações públicas. Os que o acusam de conservador têm como resposta de alguns: ah, mas o homem é "gay" e vegetariano, como se isso tivesse relevância para o caso.
Um dos temas favoritos de Lomborg são as alterações climáticas. Segundo ele, existe uma obsessão com as alterações climáticas, que não são grande problema, apesar dos alertas do IPCC. O futuro é quase totalmente desvalorizado através de outra técnica muito comum: a taxa de desconto .

A este propósito ver também artigo no RealClimate sobre análise de Lomborg.
O seu mais recente livro "Cool It" é dedicado a explicar-nos porque não devemos dar grande importância às alterações climáticas.
Numa primeira análise desprevenida, o raciocínio de Lomborg parece lógico e sedutor (ver vídeo), no entanto peca por ser linear e redutor, recorrendo ao aparente rigor dos números e de técnicas convencionais da análise económica.
Como é muito bem explicado em "Priceless - On Knowing the Price of Everything and the Value of Nothing" (aqui, uma recensão), a utilização sistemática da Análise Custo - Benefício para avaliar as políticas públicas tem problemas intrínsecos graves, mesmo quando realizadas de boa-fé. Um deles tem que ver com a relativa facilidade em determinar os custos e a enorme dificuldade em determinar os benefícios, pelas simples razão de que estes não podem ser mensurados na sua complexidade, não têm preço. Qual o preço de uma vida, quanto nos custa a extinção de uma espécie, quais os custos de uma alteração climática irreversível? Não há respostas definitivas para estas questões, que possam ser vertidas num número.

«Because important categories of benefits are priceless, cost-benefit analysis in practice frequently turns out to be "complete cost - incomplete benefit analysis". [...] The new conventional wisdom assumes that the priceless is worthless" in Priceless (2004) Frank Ackerman & Lisa Heinzerling

Nesta análise de "Cool It", Frank Ackerman expõe muito bem as insuficiências deste tipo de abordagem que caracterizam sistematicamente as posições defendidas por Lomborg.
A impostura que caracteriza o discurso de Lomborg é perigosa e deve ser denunciada, e este tipo de análise atirada ao lixo.
P.S. ver este debate entre Lomborg e Bill Mckibben .
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quarta-feira, dezembro 10, 2008

Steven Chu (próximo Secretário da Energia dos EUA?)


Parece que seria uma óptima escolha.

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domingo, dezembro 07, 2008

"Resta-nos uma última hipótese"

A investigação científica mais recente sugere que a prevenção de uma alteração climática descontrolada implica a total “descarbonização” (da economia)

De George Monbiot. Publicado no jornal britânico "The Guardian" de 25 de Novembro de 2008

George Bush está a comportar-se como um caloteiro descontrolado cuja casa está prestes a ser arrestada. Parte as louças, arranca as portas das dobradiças, está determinado a que não reste nada de valor em casa pela altura em que os malvados o expulsem de casa. As leis de última hora aprovadas por Bush, abrindo as zonas de vida selvagem aos madeireiros e à exploração mineira, inutilizando os controlos sobre a poluição, rasgando as leis de conservação, farão quase tanto dano nos últimos 60 dias da sua presidência quanto o que conseguiu nos passados 3000 (1).

Os seus apoiantes – entre os quais os piores “polutocratas” da América – estão a reclamar os favores prestados. Mas esta última farra de vandalismo é também a presidência de Bush reduzida ao seu essencial. A destruição não é o produto acidental da sua ideologia. A destruição é a sua ideologia. O neoconservadorismo é a expressão do poder pela demonstração de que se pode reduzir a escombros qualquer parte do mundo.

Se já fôr demasiado tarde para prevenir que as alterações climáticas fujam do nosso controle, a equipa de Bush deve arcar com grande parte da responsabilidade. A sua desvalorização consciente do “Clima Médio” – o interlúdio de temperaturas benignas que permitiram o florescimento da civilização humana – torna o assassínio em massa engendrado no Iraque “apenas” o segundo dos seus crimes cometidos contra a Humanidade. Bush moveu a sua guerra contra a ciência com a mesma obtusa determinação com a qual moveu a guerra ao terrorismo.

Será tarde demais? Afirmá-lo é torná-lo real. Sugerir que não há nada a fazer é assegurar que nada será mesmo feito. Mas mesmo um optimista resoluto como eu encontra cada vez mais dificuldade em convocar a esperança. Um novo sumário da investigação científica publicada desde a divulgação no ano passado do relatório do IPCC (Painel Intergovernamental sobre as Alterações Climáticas) sugere que – com quase um século de avanço em relação ao previsto anteriormente – poderão ter-se já iniciado processos climáticos críticos (2).Há apenas um ano, o IPCC avisou que “se projecta que o gelo marinho [do Árctico] no fim do Verão venha a desaparecer na quase totalidade lá para o fim do século XXI...segundo alguns modelos.”(3) Mas, como mostra o novo relatório do “Public Interest Research Centre (PIRC)”, os cientistas prevêem agora o fim do gelo marinho no fim do Verão dentro de 3 a 7 anos. A trajectória do derretimento actual mergulha nos gráficos como um meteorito caindo do céu.
Esqueçam o disparate acerca dos ursos polares: isto é sobre todos nós. À medida que o gelo desaparece, a região escurece, o que significa que absorve mais calor. Um recente artigo científico publicado na “Geophysical Research Letters” mostra que o aquecimento adicional causado pelo desaparecimento do gelo marinho penetra 1.500 km terra adentro, cobrindo quase toda a região de “permafrost” contínuo .(4) O “permafrost” do Árctico contém o dobro do carbono existente em toda a atmosfera global (5). Permanece seguro enquanto o solo se mantiver gelado. Mas o derretimento já começou. Jactos de metano estão agora a libertar-se em algumas zonas com tal intensidade que mantêm as águas abertas nos lagos do Árctico, durante todo o Inverno. (6)

Os efeitos do derretimento do “permafrost” não estão incorporados em nenhum modelo climático global. Um aquecimento descontrolado do Árctico poderia por si só fazer pender todo o planeta para um novo estado climático. O “Clima Médio” poderia colapsar mais rapidamente e mais cedo do que a mais horrível das previsões já apresentada.

O discurso de Barack Obama na cimeira do clima nos EUA da semana passada foi um espantoso desenvolvimento (7). Mostra que, pelo menos a este respeito, há realmente uma perspectiva de uma profunda mudança política na América. Mas à medida que ele descrevia um plano de trabalho para lidar com o problema à luz de como era visto na altura da Cimeira da Terra de 1992, as medidas que propõe estão agora irremediavelmente fora de tempo. A ciência avançou entretanto. Os acontecimentos que os processos da Cimeira da Terra e de Kyoto eram suposto terem prevenido estão já a acontecer. Graças às tácticas destrutivas de Bush, o Velho, Clinton (e Gore) e Bush júnior, programas graduais e ponderados do tipo que Obama agora propõe são irrelevantes. Como o relatório do PIRC sugere, os anos de sabotagem e procrastinação deixaram-nos com apenas um último fôlego: um programa de choque para uma total reconversão energética. Um artigo do Centro Tyndall para a Investigação sobre Alterações Climáticas mostra que, se quisermos ter uma hipótese razoável de impedir mais que 2º C de aquecimento, as emissões globais provenientes da utilização de energia deverão atingir o pico em 2015 e diminuir entre 6 a 8% por ano de 2020 a 2040, conduzindo a uma total descarbonização da economia global logo após 2050 (10). Mesmo esta linha de acção apenas resultaria, se algumas hipóteses optimistas acerca do comportamento da biosfera se viessem a verificar. Garantir uma elevada probabilidade para prevenir um aumento da temperatura de 2º C significaria cortar as emissões globais em mais de 8% por ano.

É isto possível? È aceitável? O artigo do Centro Tyndall salienta que reduções anuais das emissões superiores a 1% “têm estado associadas apenas com a recessão económica ou turbulência.”

Quando a União Soviética colapsou, as emissões baixaram cerca de 5% por ano. Mas só podemos responder a estas questões considerando as alternativas. A trajectória que tanto Barack Obama e Gordon Brown propuseram – redução de 80% até 2050 - significa reduzir as emissões a uma média de 2% ao ano. Este plano, como sugerem os dados do artigo do Centro Tyndall, irá provavelmente comprometer o mundo com um aquecimento de pelo menos 4 a 5ºC , o que significa o provável colapso da civilização humana em grande parte do planeta. É isto aceitável?

Os custos de um plano para a total reconversão e conservação energética seriam astronómicos, a velocidade da implementação necessária, improvável. Mas os governos dos países ricos já implementaram um esquema como este para outro fim. Um inquérito realizado pela cadeia de televisão CNBC sugere que o governo federal dos EUA gastou até agora 4.2 biliões (10^12) de dólares em resposta à crise financeira, mais que o total gasto na II Grande Guerra Mundial quando ajustado pela inflação (12). Queremos ser lembrados como a geração que salvou os bancos e deixou colapsar a biosfera?
Esta abordagem é desafiada pela pensadora americana Sharon Astyk. Num interessante novo ensaio, ela salienta que a substituição da infraestrutura energética do planeta envolve “um enorme gasto inicial de combustíveis fósseis”, necessários para o fabrico de aerogeradores, carros eléctricos, novas ligações à rede eléctrica, isolamentos térmicos e tudo o resto (13). Isto poderia conduzir-nos para além dos pontos de viragem (sem retorno) climáticos. Em alternativa, propõe ela, devemos pedir às pessoas para “fazerem sacrifícios radicais com resultados a curto prazo”, reduzindo o nosso consumo energético em 50%, com pouca assistência tecnológica, em cinco anos. Existem dois problemas: o primeiro é que todas as tentativas anteriores demonstram que confiar na abstinência voluntária não resulta. O segundo é que uma redução anual de 10% no consumo energético com a infraestrutura permanecendo praticamente intacta significa uma redução anual de 10% no consumo total: uma depressão mais profunda do que alguma vez experimentada pelo mundo moderno. Nenhum sistema político – nem mesmo uma monarquia absoluta – poderia sobreviver a um colapso económico desta escala.
Ela tem razão quanto aos riscos de um novo contrato tecnológico verde , mas estes são riscos que devemos assumir. As propostas de Astyk viajam bem adentro do domínio do “pensamento positivo”. Mesmo a solução tecnológica que favoreço habita as distantes margens do possível.

Podemos fazê-lo? Não tenho a resposta. Revendo os dados novos, tenho que admitir que se calhar já vamos demasiado tarde. Mas há outra pergunta à qual posso responder mais facilmente. Podemos dar-nos ao luxo de não tentar? Não podemos.

Referências:

1. Suzanne Goldenberg, 20th November 2008. Presidente por mais 60 dias, Bush dá cabo da protecção do mundo selvagem da América. The Guardian
2. Public Interest Research Centre, 25th November 2008. Climate Safety. www.pirc.info

3. Intergovernmental Panel on Climate Change, Working Group I. Technical Summary , p73.
4. David M. Lawrence et al., 2008. Accelerated Arctic land warming and permafrost degradation during rapid sea ice loss. Geophysical Research Letters, Vol. 35, 11506. Ver aqui .
5. Edward A. G. Schuur et al, September 2008. Vulnerability of permafrost carbon to climate change: implications for the global carbon cycle. Bioscience, Vol. 58, No. 8, pp. 701-714. Ver aqui .
6. United Nations Environment Project, 4 June 2007. Melting Ice - a Hot Topic? Press Release
7. Ver aqui

8. Kevin Anderson and Alice Bows, 2008. Reframing the climate change challenge in light of post-2000 emission trends. Philosophical Transactions of the Royal Society A. Published online . Anderson e Bows afirmam que “O quadro da política das alterações do clima tem como referência o limite dos 2ºC; no entanto, mesmo estabilizando a 450 ppmv CO2e [partes por milhão de dióxido de carbono equivalente] existem apenas 46% de probabilidades de esse limite não ser ultrapassado" Esta estimativa é dada no seguinte trabalho:
9. Malte Meinshausen, 2006. What Does a 2°C Target Mean for Greenhouse Gas Concentrations? A Brief Analysis Based on Multi-Gas Emission Pathways and Several Climate Sensitivity Uncertainty Estimates. In Hans Joachim Schellnhuber (Ed in Chief). Avoiding Dangerous Climate Change. Cambridge University Press.
10. Isto é para a estabilização a 450 ppmv CO2e - bem acima do nível que James Hansen e outros cientistas climáticos estão a apelar.
11. Anderson e Bows notam que até estabilizar as concentrações atmosféricas a 650 ppmv CO2e requere que as emissões globais atinjam um pico até 2020, seguido de cortes globais de 3 a 4% ao ano. Isto significa que as nações da OCDE devem reduzir as suas emissões ainda mais para prevenir que as concentrações subam acima dos 650.Meinshausen estima que estabilizar a 650 ppmv CO2e significa uma probabilidade de 40% de exceder os 4ºC.
12. CNBC.com, 17th November 2008. Financial Crisis Tab Already In The Trillions
13. Sharon Astyk, 11th November 2008. A New Deal or a War Footing? Thinking Through Our Response to Climate Change.

Sítio do autor: Monbiot.com

P.S. Entretanto,
Sharon Astyk respondeu a Monbiot.
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sábado, dezembro 06, 2008

Uma mobilização de tempo de guerra

Lester R. Brown

Há muitas coisas que não sabemos sobre o futuro. Mas uma coisa que sabemos é que o “business as usual” / “manter tudo na mesma” não vai continuar por muito mais tempo. Uma transformação/mudança maciça é inevitável. Será que essa mudança advirá de nos movermos rapidamente para reestruturar a economia ou porque falhamos na acção e a civilização se desfaz?
Salvar a civilização exigirá uma mobilização maciça/massiva, à velocidade do tempo de guerra. A analogia mais próxima é a tardia mobilização dos Estados Unidos durante a II Guerra Mundial. Mas ao contrário desse capitulo da História, em que um país reestruturou totalmente a sua economia, a mobilização do “Plano B” requer acção decisiva à escala global. Na frente climática, as atenções oficiais deslocaram-se agora para as negociações pós- Protocolo de Quioto, para reduzir as emissões de carbono. Mas isso levará anos. Precisamos de agir agora. Não há simplesmente tempo para negociações de anos e depois mais anos para a ratificação de outro acordo internacional.
É tempo de os países individualmente tomarem iniciativas próprias. A Nova Zelândia mostra o caminho, tendo anunciado em 2007 que irá aumentar a quota das energias renováveis na produção de electricidade de 70%, sobretudo hidro e geotermal, para 90% até 2025. O país planeia reduzir para metade as emissões “per capita” de dióxido de carbono dos transportes até 2040. Para além disto, a Nova Zelândia planeia expandir a sua área florestada em cerca de 250.000 hectares até 2020, sequestrando à volta de 1 milhão de toneladas de carbono por ano.
Sabemos da nossa análise do aquecimento global, da aceleração da deterioração dos suportes ecológicos da economia, e das nossas projecções sobre a utilização futura de recursos pela China, que o modelo económico ocidental - baseado em combustíveis fósseis, centrado no automóvel e numa economia do descartável – não durará por muito mais tempo. Necessitamos de construir uma nova economia, uma que seja alimentada por fontes de energia renovável, que tenha um sistema de transportes diversificado e que reutilize e recicle tudo.
Podemos descrever esta nova economia com algum detalhe. O problema é como fazer a transição antes que o tempo se esgote. Será que podemos alcançar os pontos de viragem políticos que nos permitam reduzir as emissões de carbono antes que alcancemos os pontos de viragem ecológicos que tornem irreversíveis o derretimento dos glaciares dos Himalaias? Seremos capazes de travar a desflorestação da Amazónia antes que seque, se torne vulnerável aos fogos, e se converta num deserto?
E se daqui a três anos os cientistas anunciassem que esperámos demasiado tempo para reduzir as emissões de carbono e que o derretimento da calota de gelo da Gronelândia se tornara irreversível? Como é que nos afectaria a constatação de que éramos responsáveis pela emergente subida do nível do mar em 7 metros e centenas de milhões de refugiados? Como é que isso afectaria o sentido de nós próprios, de quem somos? Poderia desencadear uma fracturação da sociedade ao longo de linhas geracionais como as mais familiares fracturas das sociedades ao longo de linhas raciais, religiosas ou étnicas. Como responderemos às nossas crianças quando perguntarem “Como nos puderam fazer isto? Como puderam deixar-nos perante tamanho caos?”
Como vimos, um sistema de contabilidade empresarial que deixou custos fora do balanço/dos “livros” conduziu a Enron, uma das maiores empresas dos EUA, à falência. Infelizmente, o nosso sistema de contabilidade económica global, que também deixa custos fora do balanço, tem consequências potencialmente bem mais sérias.
A chave para construirmos uma economia global que possa suster o progresso económico é a criação de um mercado honesto, um que tenha em conta a verdade ecológica. Para criar um mercado honesto, precisamos de reestruturar o sistema fiscal, reduzindo os impostos sobre o trabalho e elevando-os para variadas actividades ambientalmente destrutivas por forma a que incorporem os custos indirectos no preço de mercado. Se conseguirmos que o mercado diga a verdade, então poderemos evitar ser desagradavelmente surpreendidos por um sistema de contabilidade falho que conduz à bancarrota. Como observou Øystein Dahle, ex-vice-presidente da Exxon para a Noruega e Mar do Norte,: “o Socialismo colapsou porque não permitiu que o mercado revelasse a verdade económica. O Capitalismo poderá colapsar porque não permite que o mercado conte a verdade ecológica."
Quando consideramos uma mobilização para salvar a civilização, vemos quer similitudes quer contrastes com a mobilização para a II Guerra Mundial. Neste último caso, houve uma reestruturação económica, mas foi temporária. Uma mobilização para salvar a civilização, pelo contrário, exige uma reestruturação económica duradoura.
Ainda assim, a entrada dos EUA na II Guerra Mundial oferece um caso de estudo inspirador de rápida mobilização. Inicialmente, os EUA resistiram ao seu envolvimento, respondendo apenas depois de ser directamente atacado em Pearl Harbor em 7 Dezembro de 1941. Mas a resposta foi total. Depois de um compromisso integral, o empenhamento dos EUA ajudou a virar o pendor da guerra, conduzindo as Forças Aliadas à vitória dentro de três anos e meio.
No seu discurso sobre o Estado da Nação a 6 de Janeiro de 1942, um mês após o bombardeamento de Pearl Harbor, o Presidente Roosevelt anunciou os objectivos do país para a produção de armamento. Os EUA, disse ele, planeavam produzir 45.000 tanques, 60.000 aviões, 20.000 armas anti-aéreas, e 6 milhões de toneladas de marinha mercante. Acrescentou, “Que ninguém diga que não pode ser feito”.
Ninguém jamais vira tais gigantescos números de produção de armas. Mas Roosevelt e os seus colegas compreenderam que a maior concentração mundial de capacidade industrial ao tempo estava na indústria automóvel dos EUA. Mesmo durante a Grande Depressão, os EUA estavam a produzir 3 milhões ou mais de automóveis por ano. Depois do seu discurso sobre o Estado da Nação, Roosevelt encontrou-se com os líderes da indústria automóvel e disse-lhes que o país dependeria fortemente deles no sentido de alcançar estes objectivos de produção de armas. De início, eles queriam continuar a produzir automóveis e simplesmente acrescentar a isso a produção de armamento. O que eles ainda não sabiam é que a venda de novos carros seria banida brevemente. Desde o início de 1942 até ao fim de 1944, quase três anos, não houve praticamente produção de automóveis nos Estados Unidos.
Adicionalmente à proibição da produção e venda de automóveis para uso privado, a construção de habitação e auto-estradas foi suspensa, e a condução recreativa banida. Bens estratégicos – incluindo pneus, gasolina, combustível para aquecimento, e açúcar – foram racionados a partir de 1942. A redução do consumo privado destes bens libertou recursos materiais que eram vitais para o esforço de guerra.
O ano de 1942 testemunhou a maior expansão da produção industrial na história da nação - toda para uso militar. Desde o início de 1942 até 1944, os EUA excederam largamente o objectivo inicial de 60.000 aviões, lançando uns espantosos 229.600 aparelhos, uma frota tão vasta, dificil de imaginar mesmo nos dias de hoje. Igualmente impressionante, por altura do fim da guerra, mais de 5.000 barcos foram acrescentados aos cerca de 1000 que constituíam a Marinha Mercante Americana em 1939. No seu livro “Tempos Incomuns” (“No Ordinary Time”), Doris Kearns Goodwin descreve como várias firmas se converteram. Uma fábrica de velas de ignição esteve entre as primeiras a mudar para a produção de metralhadoras. Rapidamente, um produtor de fogões estava a produzir barcos salva-vidas, uma fábrica de carrosséis estava a fazer peças de artilharia; uma companhia de brinquedos estava a lançar bússolas; um fabricante de corpetes estava a produzir cintos para granadas; e uma fábrica de máquinas para jogos (flippers) começou a produzir obuses perfurantes de blindagem.
Em retrospectiva, a velocidade desta reconversão da economia em tempo de paz para uma economia de guerra é surpreendente. O domínio do poder industrial dos Estados Unidos fez virar a balança decisivamente para as Forças Aliadas. Winston Churchill citava frequentemente o seu ministro dos negócios estrangeiros, Sir Edward Grey: “ Os Estados Unidos são como uma caldeira gigante. Uma vez que é acendido o fogo debaixo dela, não há limite à energia que pode gerar".
Esta mobilização de recursos numa questão de meses demonstra que um país e, na realidade, o mundo, pode reestruturar a economia rapidamente se fôr convencido da necessidade de o fazer. Muita gente – embora ainda não a maioria – estão já convencidas da necessidade de uma reestruturação global da economia. O propósito do meu livro Plano B 3.0 é convencer mais pessoas desta necessidade, ajudando a virar a balança em direcção às forças da mudança e da esperança.
Adaptado do capítulo 13, “A Grande Mobilização” in “Plano B 3.0: Mobilização para Salvar a Civilização” de Lester R. Brown (New York: W.W. Norton & Company, 2008), disponível para descarga gratuita.
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domingo, novembro 23, 2008

WEO 2008 - Relatório da Agência Internacional de Energia

No passado dia 12 de Novembro, a Agência Internacional de Energia (AIE – organização intergovernamental dependente da OCDE, mundo industrializado, portanto) publicou o seu relatório anual sobre as perspectivas mundiais relativas à energia (World Energy Outlook 2008 – aqui Sumário Executivo em inglês).
Este relatório marca um ponto de viragem na posição da AIE, habitualmente muito conservadora (leia-se, optimista) nas suas projecções, embora o relatório de 2007 já alertasse para os desafios do impacto da China e Índia.Até aqui, os modelos da AIE calculavam as necessidades energéticas mundiais (procura) e assumiam que a indústria envidaria todos os esforços para responder do lado da oferta, e estava o problema resolvido, como se não houvesse qualquer limite geológico. Esta lógica deriva de uma crença cega - a ideologia do crescimento - que se recusa a constatar a evidência da finitude dos recursos naturais. Claro que deriva também da necessidade de não contrariar em demasia o seu “patrão”, “dono” de um sistema capitalista voraz por recursos, muito menos nesta altura de crise! Daí uma certa esquizofrenia.
A AIE vem admitir, finalmente, que os actuais padrões de consumo são insustentáveis. São insustentáveis porque a análise que fez de cerca de 800 poços de petróleo em exploração revelam já taxas de declínio da produção significativas (entre os 6 e os 9% ano, bem mais do que o admitido até há pouco), bem como porque continuar o “business as usual” em termos de consumo energético baseado em combustíveis fósseis conduzir-nos-á a um aumento médio das temperaturas globais que poderão atingir os 6º C até final do século, o que poderia ameaçar a própria existência da espécie humana à face da Terra! Esta admissão é bastante significativa! No entanto, a esquizofrenia revela-se na medida em que este “pormenor” é rapidamente esquecido e a AIE volta, ela própria, ao “business as usual”, garantindo que há petróleo para satisfazer uma procura de 106 milhões de barris/dia (mbd) em 2030 se forem realizados os investimentos necessários (cerca de 350 mil milhões de dólares ano até 2030 - total acumulado de $8.4 biliões - 10^12 - em dólares de2007). Muitos analistas consideram estas projecções totalmente irrealistas uma vez que estimam que seriam necessárias 6 “novas” Arábias Sauditas para fornecer a diferença entre o consumo estimado até 2030 face à produção actual (cerca de 86 mbd) bem como para substituir a produção de petróleo dos actuais poços em declínio.
A actual crise económico-financeira (dificuldades de financiamento e baixa conjuntural do preço do petróleo) está já a compromenter, a suspender mesmo, investimentos em nova exploração com impacto na produção a breve prazo.
Tirem as vossas conclusões sobre o que aí vem, à luz dos acontecimentos ocorridos este ano: “lock-outs” de camionistas, aumentos dos preços dos alimentos, etc.
Como diz um analista, não se espera que a AIE desate a gritar que o "teatro está a arder!", mesmo quando é o caso. É por isso que o conhecimento geral destes problemas se torna tão importante. O que está em causa é vital! (publicado originalmente no "Quebrar Sem Partir")
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