sexta-feira, novembro 04, 2011

Alterações Climáticas e Austeridade



No último Eurobarómetro sobre a percepção pública das alterações climáticas(1), os portugueses são os que menos revelam preocupação com este problema - apenas 7% consideram-no o problema mais grave que o mundo enfrenta. Em contrapartida, a situação económica é apontada por 25% dos respondentes como o problema mais sério - um aumento em relação aos 10% do inquérito de 2009.
É natural que assim seja. No entanto, esta crise económica tem subjacentes raízes bem mais profundas do que as frequentemente citadas e boa parte delas cruzam-se com a problemática das alterações climáticas. Aliás, vários dos problemas citados pelo Eurobarómetro: situação económica; pobreza, fome e disponibilidade de água potável; disponibilidade de energia; etc. estão subjacentes às razões pelas quais as Alterações Climáticas são consideradas como um problema muito sério.

Os dirigentes políticos europeus têm a noção, mais ou menos consciente, de que a recuperação económica não pode passar por um estímulo económico keynesiano tradicional. Este estímulo, nas actuais condições limite dos mercados energéticos e de recursos naturais em geral, conduziriam, nomeadamente, ao disparo dos preços do petróleo, e a nova recessão. Estes caíram drasticamente com a recessão de 2008, mas apesar dos actuais dados económicos negativos, os preços continuam elevados (2) . Isto não nos deveria surpreender. Afinal, embora tenha passado largamente ignorado, a Agência Internacional de Energia reconheceu – ainda que subtilmente - no World Energy Outlook de 2010 que o pico de produção mundial de petróleo convencional terá ocorrido em 2006(3) . Infelizmente, as políticas seguidas não têm sido no sentido da sustentabilidade, mas sim de uma fuga para a frente. São exemplo disso o incentivo aos agrocombustíveis, a exploração de areias betuminosas (petróleo embebido), a expansão do carvão como fonte de energia, etc. Qualquer destas “soluções” agrava o problema das alterações climáticas cuja evolução se afigura preocupante num contexto de “business as usual”(4) , e não resolve o problema económico: energia e alimentos mais caros.
É neste contexto que Kevin Anderson, ex-director do Centro Tyndall para as Alterações Climáticas, num artigo publicado na Philosophical Transactions of the Royal Society(5) , sugere a necessidade de uma austeridade planeada, incompatível com o crescimento económico nos países desenvolvidos(6), enquanto se implementa a transição para uma economia “descarbonizada” (pouco dependente de combustíveis fósseis).
As consequências das alterações climáticas são já bem vísiveis e com repercussões bem claras sobre a economia (por exemplo, pela via da dispersão do risco associado a catástrofes naturais via resseguradoras). Existem portanto razões prementes para a implementação de uma “austeridade”. No entanto, a austeridade actual está a ser implementada pelas razões erradas, porque é injusta e porque não enfrenta uma das raízes do problema: uma economia desregulamentada onde o sector financeiro é claramente parasitário e desproporcionado. A austeridade necessária tem de ser sobretudo equitativa e não deve incutir medo – de perder o emprego, do direito a serviços essenciais (saúde, educação, etc.), caso contrário será um fracasso, a todos os níveis.

(1) http://ec.europa.eu/public_opinion/archives/ebs/ebs_372_en.pdf

(2) http://www.telegraph.co.uk/finance/newsbysector/energy/oilandgas/8844260/Why-is-the-oil-price-still-so-high.html

(3) WEO 2010 pág. 6 do Sumário Executivo : "Crude oil output reaches an undulating plateau of around 68-69 mb/d by 2020 but never regains its all-time peak of 70 mb/d reached in 2006"

(4) The Copenhagen Diagnosis - updating the world in the latest climate science «The report also notes that global warming continues to track early IPCC projections based on greenhouse gas increases. Without significant mitigation, the report says global mean warming could reach as high as 7 degrees Celsius by 2100.»

(5)
http://rsta.royalsocietypublishing.org/content/369/1934/20.short
(6)
http://environmentalresearchweb.org/cws/article/news/45239

2 comentários:

AVCarvalho disse...

Todo o debate sobre a austeridade que tem vindo a ser imposta por conta da dívida, tem-se desenrolado, face ao conteúdo das medidas adoptadas (ou em vias de o ser), em torno da desigual distribuição dos custos dessa austeridade. Contudo e não obstante toda a pertinência dessa vertente, ditada até pela urgência, o certo é que se perde a oportunidade de se debater a razão fundamental que nos trouxe à situação actual – o paradigma do crescimento contínuo – e se questionar o modelo de organização social que o produz.
Mantém-se o princípio que comanda estas coisas (e que parece começar já a manifestar-se): só quando nos vão ao bolso ou o céu ameaça cair-nos sobre a cabeça, é que paramos para pensar. Por vezes (quase sempre) já demasiado tarde. Mas é assim a vida.

nazia shah disse...

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