domingo, janeiro 18, 2009

Um impostor de nome Bjorn Lomborg



Bjorn Lomborg é um dos expoentes máximos do movimento conservador anti-regulação em matéria de protecção contra riscos colocados à saúde e ao ambiente. Este movimento atingiu o cume com a chegada de George W. Bush à presidência dos EUA. Caracteriza-se por se dedicar, sobretudo através de "think tanks" (mas também, como no caso dos EUA, por intermédio de agências governamentais algo obscuras, embora influentes) , à análise custo-benefício das políticas públicas em matéria de regulamentação das actividades que afectam o ambiente, a saúde, as condições de trabalho, etc.

Lomborg é docente de estatística da Universidade de Aarhus, na Dinamarca, sendo a sua formação em ciência política. Invocando um pretenso passado de ambientalista de esquerda e de membro da Greenpeace, tornou-se famoso - com a ajuda, entre outros, do governo conservador dinamarquês através do Centro Consenso de Copenhaga e da revista The Economist (João Carlos Espada chegou praticamente a plagiar para o Expresso um artigo saído no Economist a dar grande destaque a este livro - a ideia era: vide, eis um verde - vegetariano e tudo - que reconhece que os ambientalistas são todos uns histéricos e até fornece um montão de números para prová-lo) - com a publicação do livro "O Ambientalista Céptico". Por cá, os seus artigos no Project Syndicate , têm tradução no Jornal de Negócios.

Neste livro, Lomborg dedica-se a desvalorizar os problemas ambientais, recorrendo a análises e interpretações enviesadas e a informação truncada (a que dá jeito aos seus fins), e a uma série de truques. Este livro foi objecto de queixas por cientistas dinamarqueses à Comissão de Verdade Científica de que resultou esta esclarecedora avaliação sobre a (pouca ou nenhuma) seriedade da análise de Lomborg. O livro (não o autor, por razões formais) foi acusado de desonestidade científica. Cientistas de renome: Stephen Schneider (ver tb aqui e aqui para ver de quem se trata), John P. Holdren (recém-nomeado conselheiro científico de Obama), Thomas Lovejoy, Stuart Pimm, E.O. Wilson [este designa esta obra como "The Lomborg Scam"], etc. (ver ainda aqui) pronunciaram-se sobre os temas em que são especialistas - desde a energia à biodiversidade, da demografia às alterações climáticas - abordados por Lomborg nesse livro, demonstrando a ignorância deste último. Se a ignorância fosse inocente, poderíamos desculpá-la, mas quem conheça Lomborg apercebe-se da sua arrogância ao querer determinar quem devemos ouvir e levar a sério e quem devemos ignorar, quando ele próprio não tem a mínima autoridade para sequer sugerir tais recomendações.
No entanto, Lomborg continua a ter muita audiência, a ponto de a revista Times o ter designado como uma das 100 pessoas mais influentes de 2004 - o que é deveras incrível e preocupante. Por outro lado, este sucesso pode explicar-se. Bjorn Lomborg é sem dúvida inteligente e bom em relações públicas. Os que o acusam de conservador têm como resposta de alguns: ah, mas o homem é "gay" e vegetariano, como se isso tivesse relevância para o caso.
Um dos temas favoritos de Lomborg são as alterações climáticas. Segundo ele, existe uma obsessão com as alterações climáticas, que não são grande problema, apesar dos alertas do IPCC. O futuro é quase totalmente desvalorizado através de outra técnica muito comum: a taxa de desconto .

A este propósito ver também artigo no RealClimate sobre análise de Lomborg.
O seu mais recente livro "Cool It" é dedicado a explicar-nos porque não devemos dar grande importância às alterações climáticas.
Numa primeira análise desprevenida, o raciocínio de Lomborg parece lógico e sedutor (ver vídeo), no entanto peca por ser linear e redutor, recorrendo ao aparente rigor dos números e de técnicas convencionais da análise económica.
Como é muito bem explicado em "Priceless - On Knowing the Price of Everything and the Value of Nothing" (aqui, uma recensão), a utilização sistemática da Análise Custo - Benefício para avaliar as políticas públicas tem problemas intrínsecos graves, mesmo quando realizadas de boa-fé. Um deles tem que ver com a relativa facilidade em determinar os custos e a enorme dificuldade em determinar os benefícios, pelas simples razão de que estes não podem ser mensurados na sua complexidade, não têm preço. Qual o preço de uma vida, quanto nos custa a extinção de uma espécie, quais os custos de uma alteração climática irreversível? Não há respostas definitivas para estas questões, que possam ser vertidas num número.

«Because important categories of benefits are priceless, cost-benefit analysis in practice frequently turns out to be "complete cost - incomplete benefit analysis". [...] The new conventional wisdom assumes that the priceless is worthless" in Priceless (2004) Frank Ackerman & Lisa Heinzerling

Nesta análise de "Cool It", Frank Ackerman expõe muito bem as insuficiências deste tipo de abordagem que caracterizam sistematicamente as posições defendidas por Lomborg.
A impostura que caracteriza o discurso de Lomborg é perigosa e deve ser denunciada, e este tipo de análise atirada ao lixo.
P.S. ver este debate entre Lomborg e Bill Mckibben .

8 comentários:

Carlos Borges Sousa disse...

Zé,
Excelente e oportuna "postagem" muito bem fundamentada como, de resto, te é peculiar.
Um bom ano e muitas e boas "postas"

PedroMSousa disse...

Ofereceram-me o "Calma!" (para me provocar obviamente). Prometi ler mas, não sei se o consigo fazer até ao fim.

Anónimo disse...

Desculpe, mas o seu texto cheira a mofo. Li o livro e nao revejo quase nada do que diz

José M. Sousa disse...

Então, faça favor de elaborar.

Nuno disse...

Li o seu comentário e também li o livro "Calma". Não me parece correcto chamar impostor a alguém que têm uma visão do problema diferente da norma. Em nenhum capitulo do livro ( pelo menos do que me lembro... ) Lomborg, desvaloriza o problema das alterações climáticas. Pelo contrário sugere "a different approach ". O problema, como muito bem levanta, do binómio custo beneficio para avaliação de tomada de decisões é para alguém de fora do sector político um contra senso, mas a verdade é que politicamente é dessa forma que são tomadas grande parte das decisões. Não sou um ambientalista fundamentalista até porque acredito que são os pequenos gestos e não as grandes politicas que nos poderão salvar ( se é que precisamos de ser salvos...) e isso aplica-se a todos! Eu já comecei a fazer a minha parte.

José M. Sousa disse...

«alguém que têm uma visão do problema diferente da norma»

Caro Nuno

A "norma" aqui é ciência. O Lomborg não tem qualificações para desmentir a comunidade científica internacional. Mesmo que tivesse, teria que o fazer não através de livros como "Calma", mas de artigos científicos - de preferência em todas as áreas sobre as quais se pronuncia - publicados em revistas científicas.

Sugiro que leia os "links" com atenção, e o próprio "post".
Num deles verá que a acção de Lomborg é designada por "Scam", ou seja, trapaça!

Sugiro também - se me permite - que leia algo mais sobre a análise custo benefício, por exemplo, aqui e aqui.

Leo Lynce disse...

Prezado José
Infelizmente me parece que a polarização em relação ao tema só tem prejudicado a compreensão das pessoas comuns sobre este tema. Consigo ver tantas falhas nos livros do senhor Lomborg quanto nos artigos que os detratam. Especialistas como estes dos artigos e generalistas como o senhor Lomborg (que como eu trabalha em estatística e por isso forçosamente acaba por se tornar um generalista) deveriam realizar o máximo possível de esforço para complementar suas visões. Mas não é o que acontece.
Quem sabe agora em 2010 possamos ter mais pessoas tentando ir ao centro ao invés de semear a desinformação com tanta polaridade.
Leo Lynce

José M. Sousa disse...

Caro Leo

O problema aqui é que nem todos neste "debate" se portam de forma honesta. Muita da desinformação é propositada, tem um fim em vista, frequentemente associado a interesses pouco legítimos. É o caso de Lomborg.Sobre a desonestidade deste último não faltam provas; ser ler com atenção os links do "post" e mais este link, verá porquê.