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domingo, junho 29, 2008

O "pico do Fósforo"


É frequente ouvirmos falar do Pico do Petróleo, o momento em que a produção de petróleo atingirá o seu máximo. No entanto, o esgotamento dos recursos não se limita aos energéticos, embora frequentemente estejam associados. O fósforo é um desses recursos vitais que também se está a esgotar rapidamente.
Richard Heinberg é o autor de um livro - "Peak Everything: Waking Up to the Century of Declines" - que nos explica como, em certa medida, o esgotamento do petróleo, mas também do carvão e do gás natural, está na origem do esgotamento de uma série de outros recursos.O fósforo - para o qual não existe substituto sintético - é essencial à vida e sem ele a agricultura não é possivel. O desenvolvimento dos biocombustíveis - uma das fugas em frente perante o anúncio do Pico do Petróleo - veio acelerar a utilização deste mineral finito. Os cientistas alertam agora que, se não for devidamente acautelada a gestão deste recurso, o seu pico de produção poderá ocorrer dentro de 30 anos, podendo esgotar-se dentro de 50 a 100 anos. Este é mais um alerta para os métodos insustentáveis da agricultura intensiva.
A importância deste recurso é tal, que há quem já fale em "phosphorus security", dada a concentração das rochas de fosfato num pequeno número de países. No mapa geopolítico do fósforo, destaca-se Marrocos, com 32% das reservas mundiais provadas, segundo o artigo de "The Times".
Uma nota curiosa. Segundo "The Times", os previdentes suecos já estão a desenvolver sistemas que permitam recolher a urina para daí reciclar o fósforo, até porque ao ritmo de evolução dos preços (700% nos últimos 14 meses) é de facto um bem precioso.
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sábado, maio 17, 2008

A Insegurança Alimentar e os Estados Falhados

«It is an accepted axiom of the modern age that distance no longer matters.»

A agudização da crise alimentar que se manifesta pelo mundo fora pode conduzir a um agravamento da insegurança internacional. As causas desta crise alimentar não são meramente conjunturais e portanto são de prever desenvolvimentos preocupantes.
A revista Foreign Policy publica todos os anos, na sua edição de Julho/Agosto, o Índice dos Estados Falhados (ou em risco) elaborado pelo The Fund for Peace e pelo Carnegie Endowment for International Peace.


Basicamente, um Estado falhado é aquele que não consegue assegurar a sua presença ou domínio sobre a integridade do seu território. Casos extremos conhecidos são o Afeganistão, controlado de há muito pelos senhores da guerra e pelo talibãs, a Somália, o Sudão ( a crise do Darfur) e, mais recentemente, o Iraque. Os estados falhados ("failed") ou em vias de desintegração ("failing") estão a assumir um destaque crescente na política internacional. Como observa o "The Fund for Peace": "Failed states have made a remarkable odyssey from the periphery to the very center of global politics".



O Índice é construído com base numa série de indicadores sociais, económicos e políticos , tais como:
  • pressões demográficas;
  • movimento maciço de refugiados e deslocados internos, que geram graves crises humanitárias;
  • violência entre grupos étnicos;
  • acentuado declĩnio económico;
  • desigualdades económicos entre diferentes grupos/etnias;
  • criminalização ou deslegitimação do Estado;
  • progressiva deterioração dos serviços públicos;
  • ascensão de elites que representam facções;
  • intervenções externas nesses países.
Ler Mounting Stresses, Failing States pág. 123 (da obra Plan B 3.0 disponível em PDF online).
A insegurança alimentar, ou seja, a disponibilidade e acesso aos alimentos, tem vindo a agravar-se num número crescente de países e existe uma certa equivalência entre os países que ocupam o Top 20 da tabela do Índice dos Estados Falhados e aqueles onde se verificam motins pelo aumento dos preços dos alimentos. Ler Deteriorating Oil and Food Security, pág. 46.

Como se sabe, algumas das razões desta crise alimentar podem ser imputadas aos países ricos: o incentivo aos agrocombustíveis, a relativa indiferença pelas alterações climáticas, as políticas comerciais, etc.
Ora, os países ricos parecem comportar-se como se as consequências das suas acções não pudessem ter um efeito de "boomerang". No entanto, dizem-nos que querem combater o terrorismo e que a sua presença no Afeganistão é para assegurar que o país não caia outra vez no caos. Já começam a admitir, finalmente, que não conseguem controlar a situação. Já se fala em desviar um oleoduto proveniente da Ásia Central, fazendo-o passar pelo Paquistão, outro país em risco, com a agravante de possuir armas nucleares.

Por outro lado, existe outra contradição. A economia globalizada significa que estamos dependentes de uma infraestrutura que transporta bens essenciais a essa economia, nomeadamente matérias-primas e energia. Ora, muitos destes estados desintegrados ou em vias de, são fornecedores ou dão passagem à circulação destes bens. Como se pode esperar que os países ricos não venham a pagar caro a sua imprudência? Um exemplo recorrente é a Nigéria, maior exportador de petróleo de África. As desigualdades, como refere o Fundo para a Paz, estão na origem das constantes sabotagens dos rebeldes do Delta do Níger. Recentemente, assistimos a actos de pirataria dos tempos modernos: um pesqueiro espanhol feito refém ao largo da Somália, um petroleiro japonês atacado ao largo do Yemén, e os exemplos repetem-se.
Um dos países que corre
o risco de se tornar um Estado falhado é o Egipto (veja a reportagem da Al Jazeera). No entanto, a UE quer fazer passar por lá um gasoduto. Não podemos pensar que somos imunes à desgraça dos outros.
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sábado, maio 03, 2008

sexta-feira, abril 25, 2008

Biocombustíveis: alguns dados interessantes.


Este artigo no Worldwatch Institute fornece alguns dados interessantes sobre a problemática dos biocombustíveis. A ideia de que os biocombustíveis seriam a solução para nos livrarmos do petróleo e resolver as emissões de GEE revelou-se afinal um fiasco. Apesar dos avisos de alastramento da fome, "um tsunami silencioso", atribuído em parte ao desvio de culturas alimentares para a produção de combustível para transporte, a verdade é que não representaram mais que 1.5% da oferta global de combustíveis líquidos:

«
biofuels accounted for 1.5 percent of the global supply of liquid fuels» Ou seja, está longe de representar uma alternativa e já está a causar uma catástrofe.

Por outro lado, longe de constituir uma solução sustentável para os transportes, os biocombustíveis serão ainda mais nefastos que os combustíveis fósseis:


«Recent studies conclude that clearing grass and forestlands to produce ethanol and other biofuels could potentially double the output of green­house gas emissions instead of reducing them, as previously thought.»

Para um interessante dossier sobre este tema, ver "Porque não vão os biocombustíveis salvar o Planeta".

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terça-feira, outubro 23, 2007

Os problemas energéticos: uma das maiores ameaças deste século

O Conselho InterAcademias, que reúne as academias de ciências de todo o mundo, alertou que os desafios em torno do problema da energia colocam um dos maiores perigos à Humanidade neste século, salientando o perigo das guerras pelo controlo de combustíveis fósseis como o petróleo e os problemas relacionados com as alterações climáticas. Ver notícia aqui.
No relatório "Lighting the Way: Toward a Sustainable Energy Future" afirma-se que o rumo actual é insustentável e analisam-se as opções do hidrogénio, biocombustíveis, nuclear, etc. Muitas destas tecnologias não resolverão por si nenhum problema. Há um forte incentivo ao desenvolvimento das energias renováveis, mas afirma-se que é necessário combater o desperdício e a ineficiência. Para tudo isto é absolutamente essencial uma conjugação de esforços a nível internacional, sem a qual nenhuma solução poderá ser encontrada. Quem pense, por exemplo, que é possível vedar à China o acesso ao petróleo e gás natural sem daí advirem problemas graves para o resto do mundo, não está ciente de que isso só levará a China a usar ainda mais carvão para as suas necessidades energéticas, com as consequências que se conhecem sobre o clima e a necessidade urgente de reduzir as emissões de CO2.
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quinta-feira, agosto 23, 2007

"Agflação" / "Agflation"

"Agflação" é a nova entrada para o jargão da economia. Trata-se da inflação dos preços de bens agrícolas. Há gerações que não se viam aumentos de preços desta magnitude nos mercados internacionais.
O preço dos cereais, lacticínios (o leite aumentou quase 60% nos mercados internacionais no último ano), carne, etc., têm registado aumentos significativos (aumentos percentuais de dois dígitos), segundo noticia o "The Independent", com o título "The fight for the world's food":
«[...]for the first time in generations agricultural commodity prices are surging with what analysts warn will be unpredictable consequences.»
«Rice prices are climbing worldwide. Butter prices in Europe have spiked by 40 per cent in the past year. Wheat futures are trading at their highest level for a decade. Global soybean prices have risen by a half. Pork prices in China are up 20 per cent on last year and the food price index in India was up by 11 per cent year on year . In Mexico there have been riots in response to a 60 per cent rise in the cost of tortillas.»
Podemos estar a sair da era da alimentação barata, à semelhança do fim da era do combustível barato. Aliás, existe uma relação entre os dois fenómenos. Parte deste aumento nos preços dos bens alimentares está relacionado com a explosão da procura por biocombustíveis, nomeadamente os produzidos a partir do milho, conflituando assim com a sua utilização na produção de alimentos. A maior parte do milho é utilizado como ração para animais de modo que os preços do leite, ovos, manteiga, queijo, carne, gelados, etc. são influenciados pelo preço do milho.
«While relatively little corn is eaten directly it is of pivotal importance to the food economy as so much of it is consumed indirectly. The milk, eggs, cheese, butter, chicken, beef, ice cream and yoghurt in the average fridge is all produced using corn and the price of every one of these is influenced by the price of corn.»
Outra razão para este aumento dos preços é o aumento da procura por parte de países em franco desenvolvimento económico como a China, a Índia, a Rússia, etc. Factores de ordem cultural, como por exemplo, a adopção de dietas alimentares mais "ocidentalizadas", fruto da expansão da grande indústria alimentar para países como a China, terão também o seu peso.
Este aumento de preços dos produtos agrícolas, ao contrário do que possa parecer, pode trazer benefícios para os países mais pobres, embora estas consequências não sejam automáticas e exijam alguma cautela nas análises, dada a complexidade e variedade das situações.
De modo que aqui as opiniões divergem. Por exemplo, Jean Ziegler, relator especial das Nações Unidas para o direito à alimentação teceu fortes críticas aos governos europeus e americano pela sua aposta nos biocombustíveis, acusando-os de condenar à fome centenas de milhares de pessoas.
Frei Betto, frade dominicano brasileiro, fala em necrocombustíveis, necro (que significa morte) por oposição a bio.
Lester Brown, do Earth Policy Institute, afirmou perante o Congresso Americano que o cenário estava montado para uma competição directa entre os 800 milhões de pessoas que têm automóvel e os 2 mil milhões dos mais pobres do mundo.

"The stage is now set for direct competition for grain between the 800 million people who own automobiles, and the world's 2 billion poorest people."

«Anger boiled over this week as Jean Ziegler, the UN special rapporteur on the right to food, accused the US and EU of "total hypocrisy" for promoting ethanol production in order to reduce their dependence on imported oil. He said producing ethanol instead of food would condemn hundreds of thousands of people to death from hunger.»

No entanto, os enormes excedentes agrícolas, gerados pela Política Agrícola Comum europeia e pelos apoios governamentais aos agricultores norte-americanos, foram lançados nos mercados internacionais durante décadas a preços muito reduzidos provocando a ruína dos agricultores de inúmeros países cuja principal fonte de rendimento era a agricultura.
Preços mais elevados poderão contribuir para refazer muitas dessas economias. É uma das conclusões do estudo do WorldWatch Institute, intitulado Biofuels for Transport: Global Potential and Implications for Energy and Agriculture.

Acresce a tudo isto os desafios sobre a produção alimentar que as Alterações Climáticas virão trazer. Segundo a FAO, é provável o aumento do risco de fomes.
As mais recentes tendências da produção alimentar global também lançam alguns alertas, embora alguns não prevejam problemas de maior num horizonte mais ou menos alargado: World food trends and prospects to 2025.

Claro que numa perspectiva tecnocrática bem intencionada tudo poderia correr pelo melhor se a vontade política fosse esclarecida, se a cooperação internacional funcionasse na perfeição, se a corrupção e a ganância não existissem e se a informação/formação dos consumidores fosse perfeita em todos os cantos do mundo. São muitos ses!
Será nesta perspectiva mais ou menos tecnocrática, creio eu, que se poderá incluir este relatório da FAO, "Environment and agriculture".
Nele se analisa a urgência de conciliar as necessidades crescentes por alimentos da Humanidade (que se projecta venha a crescer 50% até 2050) com a preservação da biodiversidade e ainda com a pressão exercida sobre estes dois objectivos resultante da procura crescente por biocombustíveis. Segundo a própria FAO, são "trade-offs"/equilíbrios muito difíceis. De modo que talvez fosse mais sensato admitirmos que algo tem de mudar no "business-as-usual".
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sexta-feira, julho 06, 2007