quarta-feira, janeiro 28, 2009

Priceless - nem tudo tem um preço!




Em "Priceless - On Knowing the Price of Everything and the Value of Nothing" [Pode ler-se 1º capítulo online] (ver recensões aqui e da controversa escolha de Obama, Cass Sunstein, aqui) percebemos mais claramente o porquê de se chamar à Economia a "ciência lúgubre". Instalou-se um pouco por todo o lado uma corrente de opinião defensora da ideia de que o mercado resolve tudo e é sempre mais eficaz do que a intervenção das "burocracias" governamentais. Sob a capa da objectividade científica - utilizando um método de análise denominado Análise Custo-Benefício (ACB) - promoveu uma agenda anti-regulamentação e pró-privatização dos serviços e bens públicos.

«cost-benefit analysis promotes a deregulatory agenda under the cover of scientific objectivity.» pág. 9

A ideia subjacente é que as regulamentações custam dinheiro às entidades reguladas e, portanto, estas tratam de evitá-las, financiando generosamente universidades e centros de investigação que provem que os regulamentos têm sempre - ou em regra - mais custos que benefícios.

Os EUA foram um dos países que levaram mais longe a aplicação sistemática da ACB à avaliação do impacto da legislação em matéria de protecção ambiental, de saúde pública e no local de trabalho.

À partida poderiamos pensar ser natural avaliar os custos de implementação de um determinado regulamento, por exemplo, tornar obrigatório o fim da utilização de chumbo na gasolina ou reduzir os níveis de arsénico na água. O problema é determinar os benefícios.
O que a ACB faz é comparar dois números. Sucede que, valores como a vida, a natureza, a saúde, não têm preço. Isto pode parecer um lugar-comum. Mas se atentarmos nestes exemplos, ficamos com uma ideia mais aproximada do que está em causa.
Vejamos um exemplo referido no livro: o chumbo na gasolina. Desde sempre se soube dos seus efeitos nefastos. Após muitas décadas descobriu-se que implicavam danos sobre o desenvolvimento cognitivo das crianças e o chumbo foi banido pela EPA (Agência de Protecção do Ambiente dos EUA). No entanto, esta decisão foi contestada por analistas - por ex. Randall Lutter (na altura ligado ao American Enterprise Institute) com base em considerações (adoptadas também pela própria EPA) do tipo: na realidade os danos do envenenamento por chumbo não são assim tão maus porque vendo bem as coisas quanto vale um ponto do QI de um indivíduo (foi avaliado até 8.346 dólares pela EPA e até um mínimo de 1.100$ pelos tais analistas), ou seja, que repercussão terá a redução das capacidades cognitivas das crianças nos seus rendimentos (em termos monetários) futuros ? Quanto tempo (e tempo é dinheiro!) gastam os pais para tratar dos filhos envenenados, etc.. Por incrível que possa parecer, os benefícios da eliminação do envenamento por chumbo são "medidos" desta forma. E este é apenas um dos muitos exemplos citados.

O problema é que este tipo de análise é enviesado à partida porque reduz sistematicamente o leque dos potenciais benefícios:

«Because important categories of benefits are priceless, cost-benefit analysis in practice frequently turns out to be "complete cost - incomplete benefit analysis". [...] The new conventional wisdom assumes that the priceless is worthless"
Um outro exemplo: num relatório para o Congresso dos EUA, a OMB, estimava que os custos de uma proposta para a protecção das florestas era de 180 milhões de dólares e que os benefícios seriam de apenas 219.000$/ano. De que resultavam estes benefícios? Resultavam da não construção de estradas! Ou seja, se as florestas fossem protegidas, poupar-se-ia na construção de estradas necessárias a sua exploração comercial. Ou seja, nenhuma consideração sobre o valor dos serviços prestados pelas florestas no seu estado natural, da biodiversidade, pela simples razão de que não têm preço. Mas nem por isso deixam de ter valor:

«The basic problem with narrow economic analysis of health and environmental protection is that human life, health and nature cannot be described meaningfully in monetary terms; they are priceless. When the question is whether to allow one person to hurt another, or to destroy a natural resource; when a life or a landscape cannot be replaced; when harms stretch out over decades or even generations; when outcomes are uncertain ; when risks are shared or resources are used in common; when the people "buying" harms have no relationship with the people actually harmed - then we are in the realm of the priceless, where market values tell us little about the social values at stake» pág 8-9

Uma das metodologias usadas neste tipo de análise é a taxa de desconto, usualmente utilizada em cálculo financeiro. A taxa de desconto tem o condão de desvalorizar o futuro!
Na tentativa de determinar os benefícios de uma determinada política pública sobre questões de saúde, procura-se determinar quantos anos de vida se ganham. O problema é quando se confunde anos de vida com valores monetários e se deduz que um ano de vida daqui a 40 anos é equivalente a apenas alguns dias hoje! Este tipo de raciocínio é algo hermético e congeminado de forma discreta, embora corrente, salvo quando passa para o domínio público, como sucedeu com este caso, para indignação dos idosos (ver aqui).
Não admira portanto que tanto se despreze - em alguns círculos influentes - o impacto que poderá advir a médio e longo prazo, por ex., da introdução de OGM's ou das Alterações Climáticas.

7 comentários:

miguel disse...

Viva,
venho fazer o papel de advogado do diabo, ou se quiseres a defesa corporativista da classe :)

1. Sobre o preconceito que os economistas acham que o mercado resolve tudo aconselho este artigo: http://ideas.repec.org/p/hhs/sofiwp/2006_006.html
onde se mostra que apenas 8% dos economistas americanos (já nem falo dos europeus) se podem considerar partidários do mercado livre, e que os economistas votam muito mais à esquerda do q a população em geral (2.5 vezes mais nos democratas que nos republicanos).

2. A ACB e o preço das coisas sem preço, por mais que choquem e sejam incompreendidos, só são criticados por pessoas que não têm que fazer escolhas políticas... assim é fácil é criticar.

3. Em exemplo soft de comparação: escolher entre introduzir um medicamento que salva uma vida imediatamente e outro medicamento do mesmo preço(mutuamente exclusivo com o outro) que melhora muito a qualidade de vida a 10 doentes. Qual escolherias?
Ou se faz um debate filosófico para cada decisão deste género (e há que tomá-las todos os dias na saúde, ambiente, etc.) ou se atribui um valor a cada benefício e escolhe-se o com mais benefícios. Se chamar "euros" choca, chame-se "unidades de qualidade de vida", mas isso não deixa de ser uma análise de comparação entre custos e benefícios.
Não é só uma questão de simplificação, mas de garantia que é usada a mesma bitola em todas as decisões, caso contrário poderia concluir-se que A é melhor que B, que é melhor que C, que é melhor que A... ou seja haveria decisões erradas de certeza.

4. Exemplo mais absoluto: "a vida não tem preço". Imagina que há um medicamento que salva a vida de alguém e custa 1000€. Todos concordamos. E 1 milhão? E se for metade do PIB português - o que implicava que todos teríamos que passar fome para salvar uma pessoa.
Eu sei que choca, mas de pouco serve dizer que choca, porque a decisão tem que ser tomada.
Ou seja é preciso um valor absoluto, porque ao fim e ao cabo nenhuma decisão é absoluta . Não existem decisões entre vida e dinheiro, em última análise é sempre entre bem-estar e bem-estar.

5. Um exemplo ainda mais chocante, que eu gosto de usar, e que mostra que não são só os políticos e os economistas a atribuir preços à vida.
Todos sabemos que andar na estrada é perigoso, e todos sabemos que conduzir um tanque é mais seguro que um opel corsa. Porque é que ninguém anda de tanque mas muita gente anda de corsa? E não precisa de ser um tanque mas um Mercedes, que tb são mais seguros. Por que é que pouca gente dá mais dinheiro pelo Mercedes? Não é por não terem, porque pode cortar-se na bica, no tabaco, no autocarro e ir a pé, etc. O que está implícito é um valor que cada um dá à bica, ao ter um carro bonito, à sua própria vida.

6. Um enorme equívoco que anda por aí. Quando um economista fala em custos, não se refere meramente a custos financeiros (os maus economistas, talvez). É exactamente para contabilizar devidamente todos os benefícios possíveis (ao contrário do que escreves) que se dá um valor a uma árvore, a um rio, a uma rua calma, a uma vida mais saudável.
Logo não faz sentido dizer (mas toda a gente o diz) que o custo do chumbo se refere à "repercussão [na] redução das capacidades cognitivas das crianças nos seus rendimentos (em termos monetários) futuros".

7. Estes benefícios/custos não são escolhidos ao calhas, são interpretados das escolhas individuais das pessoas. Para saber qt custa o ruído em termos de qualidade vida, avalias quanto é que as pessoas pagam a mais por uma casa numa rua calma, e uma casa equivalente e próxima na rua agitada. Etc.

8. Taxa de desconto temporal, um assunto que me é caro. Mais uma vez todos nós descontamos o futuro nas nossas decisões pessoais. Mesmo naquelas onde somos os únicos beneficiados e prejudicados. Em política, não descontar o futuro implicaria não consumirmos absolutamente nada hoje. Porque de cada 1€ que podemos produzir, podemos reinvesti-lo e torná-lo em 1.1€ no futuro. Se o futuro é tão importante como o presente, a conclusão só pode ser, toca a reinvestir tudo.

9. Nada nas ACB indica à partida que o ambiente,a saúde e o bem-estar seja desvalorizado à partida. É apenas o reconhecimento que não há políticas sem contra-partidas, logo necessitamos de um padrão de comparação. Pode obviamente haver deturpações (como deixar benefícios de fora), etc. mas o problema está em quem as faz não na análise económica.

10. Acho que conheces as minhas posições sobre ambiente etc., eu devo ser considerado um ambientalista ultra-radical por 99,99% da população (vegetariano, não tenho carro, ando de bicicleta em Lx há 15 anos, quase não uso aquecimento nem elevador, faço compostagem dos meus resíduos orgânicos em pleno centro de Lx, para lá daquelas palermices que o pessoal acha ser hiper-mega-verde como reciclar, aproveitar o papel dos dois lados, apagar a luz...), logo estou perfeitamente à vontade.

11. Por último e por curiosidade, o "valor" atribuido ao aumento médio esperado (estatisticamente) de um mês de vida em Portugal de uma pessoa, anda à volta dos 30mil€ salvo o erro... obviamente que isto não é oficial, mas é o número que correr por aí.

Espero chcar muita gente, mas que meta todos a pensar.

miguel disse...

Comentei o meu texto com um colega, (também ele "vítima de incompreensão") que me lembrou uma coisa importante. Está implícito no meu texto, mas é importante que fiquei claro.

Uma análise económica não é uma análise política. Ou seja tenta não ser uma opinião, nem uma tomada de posição.
Toda aquela análise de quantificação dos benefícios, dos custos, do desconto temporal, etc. não são opiniões sobre o que deveria ou não deveria ser feito. Tentam ser medidas dos valores que as pessoas atribuem a cada coisa.
Isto é, a economia tenta perceber como é que as pessoas tomaram as decisões (assumindo que tomaram as que eram melhores para elas do ponto de vista individual), corsa vs mercedes, rua calma vs rua agitada, gastar já vs depois, para depois aplicar exactamente o mesmo processo implícito nas decisões pessoas, a decisões colectivas.

José M. Sousa disse...

Olá!

Ainda bem que te deste ao trabalho deste longo comentário. Torna as coisas mais estimulantes e força-me a expor melhor os argumentos do livro. Vou responder com um novo "post".

miguel disse...

Aproveitei para resumir algumas concepções erradas que tenho ouvido frequentemente.
Fica assim um dicionário, que me vai dar jeito no futuro!

José M. Sousa disse...

Quanto aos economistas americanos votarem nos democratas vs republicanos, enfim, isso não é muito significativo!
Eu não sei se são apenas 8% dos membros da Associação Americana de Economistas que são adeptos do mercado livre.

«We suspect that some economists are not quite honest with themselves about how
readily they support or acquiesce to government intervention.»

Mas se forem, então têm um peso desproporcionado nos orgãos de decisão e nos media. Aqui, mais uma vez, a questão é de poder: quem domina as grandes revistas e jornais de economia, as universidades, os economistas ligados ao poder político, etc. Não é preciso muito para perceber que os adeptos do mercado livre (num sentido mais restrito que o do estudo, mas fundamental) dominam claramente, ou dominaram.
Agora, nestes tempos de crise, as oscilações acontecem. Basta ver revistas como o "The Economist".

De qualquer modo, a definição de "mercado livre" no estudo é muito ampla. Até a intervenção do Estado contra o jogo e a prostituição parecem ser consideradas como anti mercado livre! Convenhamos! É evidente que a maior parte dos economistas têm o bom senso de perceber que a intervenção do Estado é necessária!

O Franck Ackerman é economista, por exemplo, mas "ninguém" o conhece.
Sobre o caso concreto do comércio livre, é muito interessante o livro "Bad Samaritans" de Ha-Joon Chang (espero escrever um post sobre este livro).
Dando a analogia das Alterações Climáticas, a comunidade cientifica no activo é unânime em relação às causas, mas a desinformação de uma meia dúzia de "contrarians" tem um impacto tremendo. O Lomborg diz enormes asneiras sobre um montão de coisas, mas teve um destaque tremendo promovido pelos media que não dão a mesma relevância e destaque cientistas reputadíssimos!

miguel disse...

Olá,
o facto de votarem nos democratas não tem nada a ver com serem ou não a favor do mercado livre! Foi só uma curiosidade.
(Ao contrário de muita esquerda europeia não tenho grande simpatia pelos democratas).

Sim, a definição de mercado livre é sempre vaga, mas faço notar que naquele artigo não basta votar em 2 ou 3 pontos "contra" o mercado livre para cair fora da definição de defensor. Aquilo são médias, e há respostas lá que são esclarecedoras.

De qq modo, este era um ponto secundário no meu comentário. Apenas que a "Economia" e a sua "objectividade científica" NÃO são de modo nenhum defensoras da ideia de que o mercado livre resolve. Cuidado com as generalizações! ;)

José M. Sousa disse...

Com certeza, isso sei eu!
O problema não é esse, o problema é o que predomina na esfera da discussão pública, da acção dos lobbies, etc.