terça-feira, janeiro 29, 2008

Prof. Delgado Domingos: Alterações Climáticas como instrumento de controlo social!?




Numa sessão da agência municipal de ambiente e energia da cidade de Lisboa, "Lisboa E-Nova", intitulada "ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS: CONTRADIÇÕES E FACTOS INCONVENIENTES ", o Prof. Delgado Domingos (Presidente do Conselho de Administração da Lisboa E-Nova) fez uma exposição que confirmou o teor da entrevista que tinha dado ao jornalista Pedro Almeida Vieira.
O Prof. Delgado Domingos fez declarações muito estranhas, tendo em conta a sua reputação, ainda por cima, membro da American Meteorological Society. Muitas dessas declarações, no entanto, nada têm de originais, sendo apenas a repetição do rol mais que batido de posições dos cépticos das Alterações Climáticas. Essas posições já foram mais que analisadas e rebatidas.

Ora vejamos.


«Excesso de informação e falta de conhecimento favorecem pré-conceitos e ideologias. A discussão actual sobre alterações climáticas é um exemplo» slide nº 2 da exposição


Com esta afirmação e os 6 primeiros “slides” da apresentação, desvaloriza o problema do aquecimento global.


A TEMPERATURA GLOBAL

Diz que nos anos 70 previa-se que vinha aí uma nova idade do gelo (slides nºs 3 e 4, notícia do "Times"). Este é um dos aspectos que caracteriza a confusa apresentação: mistura notícias da imprensa e confunde-as com as posições da ciência. Aqui podemos encontrar uma resposta adequada a esta questão.

No slide nº 6 parece
confundir tempo com clima. Ver aqui e na legenda da seguinte imagem:

É notório nesta imagem que são mais as regiões onde as anomalias de temperatura são no sentido do aquecimento do que do arrefecimento. De qualquer modo: "A single year of data on its own can’t be used to either prove or disprove a trend like global warming". Mas : "However, as the NASA GISS scientists point out in their summary for 2007, the temperature anomaly of 2007 “continues the strong warming trend of the past thirty years that has been confidently attributed to the effect of increasing human-made greenhouse gases. The eight warmest years in the GISS record have all occurred since 1998, and the 14 warmest years in the record have all occurred since 1990.


O "HOCKEY STICK"

Sobre o "Hockey Stick" (slide nº 10) ver discussão: "Myth vs Fact Regarding the "Hockey Stick" .

Do ponto de vista científico, as afirmações mais estranhas do Prof. Delgado Domingos referem-se aos
componentes do "forçamento radiativo".




Definição de "forçamento radiativo" : «The term “radiative forcing” has been employed in the IPCC Assessments to denote an externally imposed perturbation in the radiative energy budget of the Earth’s climate system»; «The first IPCC Assessment (IPCC, 1990) recognised the existence of a host of agents that can cause climate change including greenhouse gases, tropospheric aerosols, land-use change, solar irradiance and stratospheric aerosols from volcanic eruptions».

Este último elemento,
pode constituir um forçamento radiativo negativo fornecendo uma das respostas possíveis à dúvida do Prof. no slide nº 20: «[...] definição do forçamento radiativo e os valores desse forçamento dados pelo SPM (Summary for Policy Makers) são inconsistentes com a evolução verificada para as temperaturas durante o mesmo período, pois há períodos de arrefecimento claramente identificáveis nesses últimos 150 anos»


Ver também: «Explosive volcanic eruptions greatly increase the concentration of stratospheric sulphate aerosols. A single eruption can thereby cool global mean climate for a few years» in Technical Summary do AR4 IPCC, pág. 31.






As Nuvens


O Prof. cita esta frase retirada da pág. 114 do Working Group I Report "The Physical Science Basis":

«Clouds, which cover about 60% of the Earth’s surface, are responsible for up to two thirds of the planetary albedo, which is about 30%. An albedo decrease of only 1%, (...) would cause an increase in the radiative equilibrium temperature of about 1C,(...) roughly equivalent to the direct radiative effect of a doubling of the atmospheric CO2 concentration.»

Desta frase, conclui-se que o forçamento radiativo das nuvens é negativo (referência ao albedo); no entanto, estas duas frases retiradas da mesma página, afirmam algo mais complexo:


  • «the amplitude and even the sign of cloud feedbacks was noted in the TAR as highly uncertain, and this uncertainty was cited as one of the key factors explaining the spread in model simulations of future climate for a given emission scenario» [pág. 114, 2ª coluna linha 14 do PSB ("The Physical Science Basis")]


  • Simultaneously, clouds make an important contribution to the planetary greenhouse effect. (linha 32)

Insinuar que o aumento de temperatura derivado do aumento de CO2 provoca um "feedback" negativo devido ao aumento de nuvens é um passo precipitado. Isto porque "aerosols and clouds absorb energy in addition to reflect it"


Ou seja, a incerteza funciona nos dois sentidos; a frase citada não nega problema nenhum, antes pelo contrário.


O VAPOR DE ÁGUA



«A fundamental importância do vapor de água, o mais importante gás com efeito de estufa é repetidamente acentuada e a incerteza trazida pelas nuvens bem sublinhada.» slide nº 29


Esta frase, tecnicamente, está correcta, mas no contexto em que é afirmada (ver apresentação), ou seja, de desvalorização da importância de combater as emissões dos GEE, nomeadamente, o CO2 [ «não só porque o CO2 não é o principal gás com efeito de estufa» slide 48] , revela um tratamento pouco cuidado do problema, como veremos mais à frente.

A confusão aqui reside em misturar a importância do vapor de água enquanto GEE numa situação de equílibrio, com a sua importância enquanto forçamento radiativo.


Vejamos o que diz o relatório do IPCC:


  • «Although water vapour is a strong greenhouse gas, its concentration in the atmosphere changes in response to changes in surface climate and this must be treated as a feedback effect and not as a radiative forcing» TS pág. 23 AR4
  • «Direct emission of water vapour by human activities makes a negligible contribution to radiative forcing. However, as global mean temperatures increase, tropospheric water vapour concentrations increase and this represents a key feedback but not a forcing of climate change. Direct emission of water to the atmosphere by anthropogenic activities, mainly irrigation, is a possible forcing factor but corresponds to less than 1% of the natural sources of atmospheric water vapour. The direct injection of water vapour into the atmosphere from fossil fuel combustion is significantly lower than that from agricultural activity. » in TS. 2.1 Greenhouse Gases (p.28) AR4

O DIÓXIDO DE CARBONO (CO2)


A importância do dióxido carbono, segundo o IPCC:


  • «Current concentrations of atmospheric CO2 and CH4 far exceed pre-industrial values found in polar ice core records of atmospheric composition dating back 650,000 years. Multiple lines of evidence confirm that the post-industrial rise in these gases does not stem from natural mechanisms (see Figure TS.1 and Figure TS.2).

  • «With the important exception of carbon dioxide (CO2), it is generally the case that these processes remove a specific fraction of the amount of a gas in the atmosphere each year and the inverse of this removal rate gives the mean lifetime for that gas» pág 23 T.S. 2.1

  • «Long-lived greenhouse gases (LLGHGs), for example, CO2, methane (CH4) and nitrous oxide (N2O) are chemically stable and persist in the atmosphere over time scales of a decade to centuries or longer, so that their emission has a long-term influence on climate.» pág 23 T.S. 2.1

  • «The industrial era increase in CO2 , and in the radiative forcing (Section 2.3) by all three gases, is similar in magnitude to the increase over the transitions from glacial to interglacial periods, but started from an interglacial level and occurred one to two orders of magnitude faster» pág 447 (PSB)

  • «The understanding of anthropogenic warming and cooling influences on climate has improved since the TAR, leading to very highconfidence that the effect of human activities since 1750 has been a net positive forcing of +1.6 [+0.6 to +2.4] W m–2.

Mais palavras para quê? A importância do CO2 como gás de efeito de estufa e o seu impacto actual no aquecimento global são patentes nestas citações do relatório do IPCC.


Mas vejamos o que dizem outras organizações científicas sobre este assunto:

AMERICAN GEOPHYSICAL UNION


«The American Geophysical Union, an organization of geophysicists that consists of more than 45,000 members, has issued a strong statement on human-caused global warming :


  • «The Earth's climate is now clearly out of balance and is warming»

  • «The cause of disruptive climate change, unlike ozone depletion, is tied to energy use and runs through modern society. Solutions will necessarily involve all aspects of society

Parece-me que esta frase demonstra que soluções que tenham apenas em conta as medidas de eficiência energétca (slide 47), não são suficientes.


  • If this 2°C warming is to be avoided, then our net annual emissions of CO2 must be reduced by more than 50 percent within this century»

Redução de CO2, questão ideológica? Cenários subjectivos (slides 44 e 48) ?


  • [...] to educate the public on the causes, risks, and hazards; and to communicate clearly and objectively with those who can implement policies to shape future climate. »


AMERICAN METEOROLOGICAL ASSOCIATION

Declaração da American Meteorological Association:


  • «In the last 50 years atmospheric CO2 concentration has been increasing at a rate much faster than any rates observed in the geological record of the past several thousand years»;

  • «There will be inevitable climate changes from the greenhouse gases already added to the Earth system. Their effect is delayed several decades because the thermal inertia of the oceans ensures that the warming lags behind the driving forcing.

  • «Many of the trends observed in recent decades are projected to continue. The model projections all show greater warming in northern polar regions, over land areas, and in the winter season, consistent with observed trends»

Finalmente:

  • «Policy choices in the near future will determine the extent of the impacts of climate change. Policy decisions are seldom made in a context of absolute certainty. Some continued climate change is inevitable, and the policy debate should also consider the best ways to adapt to climate change. Prudence dictates extreme care in managing our relationship with the only planet known to be capable of sustaining human life.»

DECLARAÇÃO DA AMERICAN ASSOCIATION FOR THE ADVANCEMENT OF SCIENCE


DECLARAÇÃO CONJUNTA DE 11 ACADEMIAS DE CIÊNCIAS

  • «It is vital that all nations identify cost-effective steps that they can take now, to contribute to substantial and long-term reduction in net global greenhouse gas emissions.»
  • «[...] a lack of full scientific certainty about some aspects of climate change is not a reason for delaying an immediate response that will, at a reasonable cost, prevent dangerous anthropogenic interference with the climate system.»

Até a AMERICAN ASSOCIATION OF PETROLEUM GEOLOGISTS , mais reservada por razões mais ou menos óbvias, reconhece :

  • «In the last century growth in human populations has increased energy use. This has contributed additional carbon dioxide (CO2) and other gases to the atmosphere»

Mas, será que a conspiração de Al Gore e companhia (slide 45) está a dar resultado? Pelos vistos, não! Ver aqui e aqui.

Ver também "Carbon Budget and Trends".


E o que recomenda o IPCC em relação aos objectivos de redução de CO2?

«In the majority of the scenarios in the most stringent stabilization category (I), emissions are required to decline before 2015 and be further reduced to less than 50% of today’s emissions by 2050.» in Working Group III Report "Mitigation of Climate Change" ; Technical Summary pág 38 ; Ver quadro pág. 39

E o que estão a fazer as principais potências económicas mundiais?:

Ver "Bali Action Plan"

  • Os EUA, a nível federal, não se comprometem com nenhuma meta concreta de redução de CO2;
  • A Europa, a mais ambiciosa, estabeleceu uma meta de redução de 20% até 2020. [o IPCC recomenda entre 20 a 45%]:
  • A China e a Índia, dois países em crescimento acelerado, não estão vinculados ao Protocolo Kyoto;

Perante este cenário, não se percebem as afirmações do tipo daquelas do slide 49!

Pessoas com esta responsabilidade, detentores de cargos públicos, deveriam ser mais cuidadosos, sobretudo tratando-se de uma matéria tão complexa e cuja real importância é de díficil percepção pelo público em geral. Só uma população esclarecida será capaz de vencer os grupos de interesse particulares que bloqueiam medidas políticas de fundo que evitem que caminhemos na direcção da catástrofe.

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domingo, janeiro 27, 2008

Who Reads the Papers - Um pouco de humor!


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A Shell reconhece o "Pico Petrolífero" dentro de 7 anos!



Há tempos, o nosso brilhante presidente executivo da GALP, eng. Manuel Ferreira de Oliveira, dizia na Grande Entrevista a Judite de Sousa da RTP (ver arquivo e procurar áudio Ferreira de Oliveira) o seguinte - face à pergunta da jornalista sobre a inquietação pelo petróleo ter chegado aos cem dólares e poder chegar aos 150 dólares até final de 2008 - :

- «Se eu tivesse que fazer uma projecção, diria que em 2008 vamos ver o preço cair para os 70-75 dólares por barril, e não há razão nenhuma, nenhuma, para que essa quebra não seja superior.»

Sobre as reservas de petróleo:

-«hoje, a relação entre as reservas e a produção é de 43, 44 anos [...] Nós poderiamos discutir um bocadinho sobre futurologia, mas os que pensam sobre estas coisas dizem que o pico do consumo de petróleo vai ocorrer por volta de 2020-2030, a partir do qual começa a declinar. [...] A partir de 2020-2030 prevê-se um declínio paulatino da produção e do consumo, que vai sendo substituida por outras fontes energéticas alternativas» - eu acrescentaria, essas alternativas vão aparecer milagrosamente, no momento exacto em que precisarmos!

Pelos vistos, o Sr. Engenheiro é um optimista, mas parece um pouco distraído e iludido pelas recentes descobertas no Brasil. Se o que ele considera serem os conhecedores destas coisas são as companhias petrolíferas, então veja-se o comunicado da SHELL:

«We are experiencing a step-change in the growth rate of energy demand due to rising population and economic development. After 2015, easily accessible supplies of oil and gas probably will no longer keep up with demand.»

Ou seja, a Shell admite que, embora haja muito petróleo para extrair, já a partir de 2015 poderemos vir a ter problemas de abastecimento de um recurso que é a base fundamental da Civilização Moderna e que, portanto, não pode ser substituído de um dia para o outro!

Ver também aqui , aqui, aqui e ainda aqui

As afirmações do presidente da GALP não dão o sinal correcto aos cidadãos e consumidores, porque leva-os a pensar que não há problema de maior e portanto, apesar do preço estar um bocado mais alto, podem continuar a espatifar um recurso essencial que começa a escassear. Claro que o interesse dele não é o interesse público, mas o dos seus accionistas, evidentemente.
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sábado, janeiro 26, 2008

Qual é a gravidade das Alterações Climáticas...




....e o tempo para agir?

How dire is the climate situation? Consider what Rajendra Pachauri, the head of the United Nations' prestigious Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC), said last month:

"If there's no action before 2012, that's too late. What we do in the next two to three years will determine our future. This is the defining moment."

Pachauri has the distinction, or misfortune, of being both an engineer and an economist, two professions not known for overheated rhetoric.
Ler mais em «Desperate times, desperate scientists».
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A Civilização Moderna

«The most significant characteristic of modern civilization is the sacrifice of the future for the present, and all the power of science has been prostituted to this purpose»

William James
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terça-feira, janeiro 22, 2008

2007: ano mais quente no Hemisfério Norte


Segundo a NASA, o ano de 2007 foi o mais quente de sempre, desde que há registos, no Hemisfério Norte e a nível global o segundo mais quente, igualando o ano de 1998 (ver aqui ). No entanto, este registo de 2007 é especialmente notável porque existiam as condições, comparativamente a outros anos, que fariam esperar temperaturas inferiores aos máximos : «The unusual warmth in 2007 is noteworthy because it occurs at a time when solar irradiance is at a minimum and the equatorial Pacific Ocean is in the cool phase of its natural El Nino – La Nina cycle.»

Contudo, segundo os dados de outra agência norte-americana, a NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration), o ano de 2007 foi "apenas" o 5º mais quente. De notar que "Seven of the eight warmest years on record have occurred since 2001"
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sábado, janeiro 19, 2008

Plan B - Lester Brown




«Keeping the [global economic] bubble from bursting will require an unprecedented degree of international cooperation to stabilize population, climate, water tables, and soils - and at wartime speed. Indeed, in both scale and urgency the effort required is comparable to the US mobilization during World War II.»

Lester R. Brown, Plan B (2003)


Lester R. Brown publicou recentemente Plan B 3.0 - Mobilizing to Save Civilization, o livro está disponível online, por capítulos. Destaque para "The Great Mobilization":


«There are many things we do not know about the future. But one thing we do know is that business as usual will not continue for much longer. Massive change is inevitable. Will the change come because we move quickly to restructure the economy or because we fail to act and civilization begins to unravel?»

«Shifting Taxes and Subsidies

The need for tax shifting—lowering income taxes while raising levies on environmentally destructive activities—has been widely endorsed by economists. For example, a tax on coal that incorporated the increased health care costs associated with mining it and breathing polluted air, the costs of damage from acid rain, and the costs of climate disruption would encourage investment in clean renewable sources of energy such as wind or solar.»
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sexta-feira, janeiro 18, 2008

Entrevista ao Prof. Delgado Domingos

O Prof. Delgado Domingos deu recentemente uma entrevista ao jornalista Pedro Almeida Vieira abordando vários assuntos, entre os quais as Alterações Climáticas. A fazer fé na transcrição da entrevista, fiquei desapontado com a forma ligeira como o Prof. abordou este assunto, visto que é uma pessoa que merece todo o respeito. Mas a verdade é que considerações daquele tipo dão falsos argumentos aos cépticos sem que haja nenhum fundamento para tal, como se pode constatar aqui
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Hipocrisia em torno do Tata Nano


O Grupo Indiano Tata, lançou um novo carro do povo, o Nano, que por menos de 2000€, ficará acessível à crescente classe média indiana, num país com cerca de mil milhões de habitantes, e de outros países em desenvolvimento. Logo surgiu a preocupação fundada, a começar por um indiano, o director do IPCC, Rajendra Pachauri (que diz estar a ter pesadelos sobre este assunto), com o impacto adicional que terá sobre as emissões de gases com efeito de estufa (e, logo, sobre as alterações climáticas) esta nova opção de mobilidade disponível a milhões de pessoas. No entanto, como é muito bem dito aqui, há uma grande dose de hipocrisia por parte de muitos no mundo ocidental, porventura mais relacionada com a competição que provém desta zona do mundo e que a cegueira arrogante de muitos desprezava, do que com a genuína preocupação com as alterações climáticas. Muitos europeus, nomeadamente os dirigentes e as elites, têm que se ir habituando à ideia de que há mais mundo lá fora do que aquele a que estavam habituados a considerar.

Esta do New York Times e esta do WP são de rir, vindo do país donde vem, ao que se diz, o mais rico, tecnologicamente avançado país do mundo, onde o desprezo pelo transporte público é generalizado!
De qualquer modo, a avaliar sobretudo pelo artigo do Washington Post, o Nano poderá ter o condão de fazer os americanos perceberem que há aqui um problema muito sério e que para ter solução exige compromissos e uma postura ética.
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O Progresso


«Human progress is neither automatic nor inevitable. We are faced now with the fact that tomorrow is today. We are confronted with the fierce urgency of now. In this unfolding conundrum of life and history there is such a thing as being too late…We may cry out desperately for time to pause in her passage, but time is deaf to every plea and rushes on. Over the bleached bones and jumbled residues of numerous civilizations are written the pathetic words: Too late.” »

Martin Luther King Jr. Ler mais...

quinta-feira, janeiro 17, 2008

Bush admite Pico Petrolífero?!


Em recente visita à Arábia Saudita, o Presidente Bush pressionou o rei saudita a aumentar a produção de petróleo, sobretudo agora que aumentam os receios de uma grave recessão e se aproximam as eleições. No entanto, mesmo Bush teve que admitir que as coisas não estão fáceis também neste campo: ler Jerome a Paris.
Note-se, como é referido, que apesar do suposto esforço de aumento de produção da Arábia Saudita, a produção aumentou apenas 1.5 milhões barris/dia(mb/d) em dez anos, ao passo que a procura cresceu 10(mb/d).
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O Protocolo de Quioto está em vigor

Para quem não tivesse reparado, como eu, o Protocolo de Quioto entrou em vigor a 1 de Janeiro de 2008. Durante os próximos 5 anos, as metas fixadas por Quioto são para cumprir, "or else", toca a pagar:
«During this period, most industrialized countries and countries with “economies in transition” (including the Russian Federation, the Baltic States, and several Central and Eastern European States), are obliged to reduce their greenhouse gas emissions below levels agreed under the Protocol.» Ler mais...

quarta-feira, janeiro 16, 2008

terça-feira, janeiro 15, 2008

Filosofia, Fé e Ciência


When thinking changes your mind, that's philosophy.
When God changes your mind, that's faith.
When facts change your mind, that's science.
WHAT HAVE YOU CHANGED YOUR MIND ABOUT? WHY?

Science is based on evidence. What happens when the data change? How have scientific findings or arguments changed your mind?"

in "Edge"

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domingo, janeiro 13, 2008

"The mother of all energy crises"


"The mother of all energy crises" de Robert L. Hirsch

« Lidar com um pico na produção mundial de petróleo será extremamente complexo, envolverá milhões de milhões de dólares e exigirá décadas de esforços intensos sob as melhores das condições.»

«[...] um declínio de 1% na produção mundial de petróleo criaria uma redução de 1% no PIB mundial. Mesmo reconhecendo o facto de que a precisão é impossível em tais matérias, é preocupante contemplar o impacto da escassez mundial de petróleo a crescer a 2% a 5% ao ano ao longo de um longo período. »

«o público terá de tornar-se consciente do problema; segundo, teremos de substituir nosso actual e excessivamente complicado método de tomada de decisão — em todo o mundo; e terceiro, grandes compromissos terão de ser feitos e seguidos. As tarefas pela frente serão dantescas;»
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sexta-feira, janeiro 11, 2008

Platão sobre a Política


"One of the penalties for refusing to participate in politics is that you end up being governed by your inferiors."

"A penalização por não participares na política, é acabares a ser governado pelos teus inferiores"

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segunda-feira, janeiro 07, 2008

2007: a temperatura continua alta!


Segundo o "Goddard Institute for Space Studies", 2007 foi o segundo ano mais quente nos primeiros 11 meses: GISS 2007 Temperature Analysis through November.

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Petróleo: 2007 em revista

A ASPO-EUA passa o ano em revista no que diz respeito ao petróleo: "The Year in Review Major Developments in the Peak Oil Story during 2007": Ver o PDF "Peak Oil Review: 7 January 2008"

Entretanto, as apostas (contratos de opções) para o preço do petróleo nos 200 US$, no final deste ano, decuplicaram (notícia da Bloomberg).
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sábado, janeiro 05, 2008

Primárias EUA: propostas


No que diz respeito à política energética e alterações climáticas, parece haver boas propostas do lado Democrata, segundo Joseph Romm do Climate Progress, ligado ao think tank The Center for American Progress.

Eis o programa de Obama, o de Hillary Clinton e respectivos comentários do Climate Progress aqui, aqui e aqui .

Já agora, as propostas de John Edwards.
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Most Terrifying Video You'll Ever See - Cenários sobre as Alterações Climáticas

Vale a pena ver este vídeo, apesar de tudo com um certo humor, sobre quatro cenários possíveis para a evolução futura do clima e as acções empreendidas pela Humanidade em resposta a esses cenários.

Ver também "How it all ends" e "How it all ends: Index" seguindo toda a sequência de vídeos na coluna do lado direito.
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quarta-feira, dezembro 19, 2007

Carta de James Hansen a Gordon Brown

A Grã-Bretanha, um dos países onde a investigação sobre o clima e a acção governamental (pelo menos em teoria) contra as Alterações Climática são dos mais avançados, corre o risco de retroceder com a aprovação de um novo plano de construção de centrais a carvão. James Hansen, cientista reconhecido no estudo das AC, escreve ao Primeiro-Ministro Britânico, Gordon Brown, apelando à sua liderança, tendo em conta as responsabilidades históricas da Grã-Bretanha. A carta na íntegra. Aqui a versão com o anexo referido na carta.
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terça-feira, dezembro 18, 2007

Jared Diamond: o estado do ambiente no Mundo


Entrevista (texto e vídeo) dada à Scientific American. Aqui, recensão da obra de Diamond, "Colapso" pela Scientific American.
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segunda-feira, dezembro 17, 2007

Bali, o Nobel da Paz e Al Gore

Para quem está absolutamente convencido que Al Gore mereceu o prémio Nobel da Paz pelos seus esforços no combate às Alterações Climáticas, talvez reconsidere depois de ler este texto de George Monbiot.
Neste texto (traduzido), Monbiot demonstra claramente o fracasso da Conferência de Bali sobre as Alterações Climáticas, chamando os bois pelos nomes.
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domingo, dezembro 16, 2007

Closing press briefing (15.12.07)

«However there was palpable disappointment with the huge concessions made to get America's agreement, mostly over lack of detail about any key pledges»

Ninguém quer admiti-lo, mas a verdade é que esta cimeira foi um fracasso, se tivermos em conta a urgência de começar a dar resposta ao problema (que tem associado processos com uma tremenda inércia, como sejam os investimentos em novas centrais a carvão, e todo uma série de investimentos nos transportes, habitação, energia, etc., que uma vez realizados não podem ser facilmente revertidos) de forma objectiva e concreta não se limitando a declarações de intenções.

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Ban Ki-moon urges action on climate change (12.12.07)

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sexta-feira, dezembro 07, 2007

O que é o Progresso?

«When you warn people about the dangers of climate change, they call you a saint. When you explain what needs to be done to stop it, they call you a communist.»

George Monbiot, "What is Progress?" Ler mais...

terça-feira, dezembro 04, 2007

O divórcio não é verde

A REALLY INCONVENIENT TRUTH: DIVORCE IS NOT GREEN

The data are in. Divorce is bad for the environment. A novel study that links divorce with the environment shows a global trend of soaring divorce rates has created more households with fewer people, has taken up more space and has gobbled up more energy and water.

Os divorciados têm uma maior pegada ecológica. A Igreja Católica ainda se lembra desta....

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segunda-feira, novembro 12, 2007

Entrevista do Financial Times a Fatih Birol (economista-chefe da Agência Internacional de Energia)


Finalmente, a AIE vem admitir dificuldades (WEO 2007) com o abastecimento do petróleo face à crescente procura. Vale a pena ler as principais passagens da entrevista e comentários de "Jerome a Paris" aqui.

Uma transcrição da entrevista pode ser lida na página do próprio FT, bastando para isso registar-se gratuitamente (interview with the FT).
Fatih Birol alerta que são necessárias mudanças drásticas desde já para reduzir o consumo de energia, quer por razões de segurança energética, quer por causa das alterações climáticas. Vem admitir que o pico do petróleo fora da OPEP já passou e incertezas quanto ao nível das reservas da OPEP, coisa que Matthew Simmons vinha há muito a dizer.
Vindo de quem vem, uma organização ligada aos países da OCDE, tradicionalmente conservadora nas suas avaliações e que ainda há pouco tempo desvalorizava os alertas, dá que pensar e deveria fazer reflectir o nosso governo. Mas ainda mais significativas são as afirmações dos CEO's da Conoco Phillips e da BP sugerindo que as previsões de procura da AIE de 116 mb/d para 2030 são absurdas e que não acreditam que alguma vez a produção ultrapasse os 100 mb/d.
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segunda-feira, novembro 05, 2007

China: o grande passo para trás


"O GRANDE PASSO PARA TRÁS" (tradução parcial de artigo publicado na revista "Foreign Affairs")

Os problemas ambientais da China estão a aumentar e o país está a tornar-se rapidamente um dos maiores poluidores do mundo. A situação continua a deteriorar-se porque, mesmo quando Pequim define objectivos ambiciosos para defesa do ambiente, os responsáveis locais geralmente ignoram-nos, preferindo concentrar-se em promover o crescimento económico.
Uma real melhoria do ambiente na China irá exigir reformas políticas e económicas revolucionárias que partam de baixo para cima ("bottom-up").

A poluição da água e a sua escassez estão a pesar sobre a economia, o aumento dos níveis da poluição do ar está a pôr em perigo a saúde de milhões de chineses, e uma boa parte do território está a transformar-se rapidamente num deserto. A China tornou-se líder mundial na poluição do ar e da água e na degradação do solo, e um dos principais responsáveis por alguns dos mais incómodos problemas ambientais globais tais como o comércio ilegal de madeira, a poluição marítima e as alterações climáticas. À medida que os grandes problemas de poluição da China aumentam, assim, também, os riscos para a sua economia, saúde pública, estabilidade social e reputação internacional. Como avisou, em 2005, Pan Yue , vice ministro da Agência de Protecção Ambiental Estatal da China , "* O milagre [económico] acabará em breve porque o ambiente não consegue acompanhar o ritmo"*

Com o aproximar dos Jogos Olímpicos de 2008, os líderes chineses aumentaram a sua retórica, estabelecendo objectivos ambientais ambiciosos, anunciando níveis mais elevados de investimento ambiental e exortando os líderes empresariais e funcionários locais a limparem as suas áreas. O resto do mundo parece aceitar que a China está a trilhar um novo curso : quando a China se declara aberta aos negócios amigos do ambiente, funcionários governamentais nos EUA, UE e Japão interrogam-se não sobre se, mas quanto investir.
Infelizmente, muito deste entusiasmo deriva de uma crença generalizada mas errónea de que tudo o que Pequim ordena se cumpre. O governo central define a agenda nacional, mas não controla todos os aspectos da sua implementação. Na realidade, os responsáveis locais raramente dão ouvidos às directivas ambientais de Pequim, preferindo concentrar as suas energias e recursos na promoção do crescimento económico. A verdade é que para mudar o panorama ambiental na China será necessário algo muito mais difícil do que fixar metas e gastar dinheiro. Exigirá reformas politico-económicas revolucionárias da base para o topo.

Por um lado, os líderes chineses precisam de tornar mais fácil para os responsáveis locais e para os industriais fazer o mais correcto no que diz respeito ao ambiente, dando-lhes os incentivos certos. Ao mesmo tempo, precisam de suavizar as restrições políticas que impuseram sobre os tribunais, as organizações não governamentais e a comunicação social, de forma a permitir a estes grupos tornarem-se executores independentes da protecção ambiental.

Pecados de emissão

O rápido desenvolvimento da China, frequentemente descrito como um milagre económico, tornou-se um desastre ambiental. O crescimento recorde necessariamente requer um consumo gigantesco de recursos, mas na China o uso de energia tem sido particularmente "sujo" e ineficiente, com graves consequências para o ar, terra e água do país.

O carvão que tem alimentado o crescimento económico chinês, por exemplo, está também a sufocar o seu povo. O carvão providencia 70% das necessidades energéticas da China: o país consumiu cerca de 2,4 mil milhões de toneladas em 2006 – mais do que os EUA, Japão e o Reino Unido combinados. Em 2000, a China previu que duplicaria o consumo de carvão em 2020; agora, espera-se que venha a fazê-lo até ao fim deste ano. O consumo na China é gigantesco em parte porque é ineficiente: como um funcionário chinês relatou ao "Der Spiegel" em princípios de 2006, "para produzir bens no valor de $10,000 necessitamos de 7 vezes mais recursos que os usados pelo Japão, quase 6 vezes mais recursos utilizados pelos EUA e – uma fonte particular de embaraço – quase três vezes mais recursos do que a Índia"


Entretanto, esta dependência do carvão está a devastar o ambiente na China. O país alberga 16 das 20 cidades mais poluídas do mundo, e 4 das piores dentre elas estão na província rica em carvão de Shanxi, no nordeste da China. Tanto quanto 90% das emissões de dióxido de enxofre da China e 50% das suas emissões de partículas são o resultado da utilização do carvão. As partículas são responsáveis por problemas respiratórios entre a população, e a chuva ácida, causada pelas emissões de dióxido de enxofre, cai sobre um quarto do território e um terço das terras agrícolas, diminuindo a produção e degradando os edifícios.

Ainda assim, o uso do carvão pode, em breve, ser o menor dos problemas de qualidade do ar na China. A explosão dos transportes coloca um desafio crescente à qualidade do ar na China. As construtoras chinesas estão a desenvolver mais de 52.700 milhas de novas auto-estradas pelo país fora. Cerca de 14.000 novos carros chegam às estradas chinesas em cada dia. Em 2020, espera-se que a China venha a ter 130 milhões de automóveis, e em 2050 – ou talvez já em 2040 – que venha a ter mais automóveis que os EUA. Pequim já paga um alto preço por esta "explosão". Num inquérito de 2006, os chineses classificaram Pequim como a 15ª cidade da China com melhor qualidade de vida, caindo do 4ª lugar que ocupava em 2005, sendo esta queda da responsabilidade do aumento do tráfego e da poluição. Os níveis de partículas suspensas no ar são agora seis vezes superiores em Pequim do que Nova Iorque.

Os planos de urbanização em grande escala da China só agravarão estes problemas. Os líderes chineses planeiam transferir 400 milhões de pessoas – equivalente a bem mais que toda a população dos EUA – para novos centros urbanos entre 2000 e 2030. No processo, irão erguer metade de todos os edifícios que se espera venham a ser construídos em todo o mundo neste período. Esta é uma perspectiva problemática tendo em conta que os edifícios chineses não são energético-eficientes – na realidade, são cerca de duas vezes e meia menos que os da Alemanha. Além disso, os novos chineses urbanos, que usam aparelhos de ar condicionado, televisores, e frigoríficos, consomem cerca de três vezes e meia mais energia que os que vivem no campo. E, embora a China seja um dos maiores produtores mundiais de painéis solares, lâmpadas fluorescentes e janelas energético-eficientes, a maior parte é produzida para exportação. A não ser que uma fracção acrescida destes equipamentos economizadores de energia fique no país, o "boom" de construção resultará numa explosão do consumo de energia e da poluição.

O solo na China tem sofrido também os efeitos de um desenvolvimento sem limites e a negligência do ambiente. Séculos de desflorestação acompanhados de pastoreio intenso e sobrecultivo das terras aráveis, deixaram grande parte do norte e noroeste da China seriamente degradado. No último meio século, ainda por cima, as florestas e terras agrícolas tiveram que dar lugar à indústria e às cidades em expansão, resultando na diminuição dos rendimentos das colheitas, na perda de biodiversidade e em alterações climáticas locais. O Deserto de Gobi, que agora envolve grande parte do oeste e norte da China, está a expandir-se a cerca de 1900 milhas quadradas por ano; alguns relatórios afirmam que apesar dos esforços agressivos de reflorestação de Pequim, um quarto de todo o país é agora deserto. A Administração Florestal do Estado estima que a desertificação atinge 400 milhões de chineses, fazendo de milhões deles refugiados ambientais em busca de novos lares e empregos. Entretanto, grande parte do solo arável na China está contaminado, levantando a preocupação quanto à segurança dos alimentos. Crê-se que tanto quanto 10% dos terrenos agrícolas estão poluídos, e cada ano 12 milhões de toneladas de cereal estão contaminadas com metais pesados absorvidos pelo solo.

Riscos relacionados com a água

E depois há o problema relacionado com o acesso à agua potável. Apesar da China possuir os quartos maiores recursos de água doce do mundo (depois do Brasil, Rússia e Canadá), a enorme procura, sobreuso, ineficiências, poluição e distribuição desigual levaram a uma situação na qual dois terços das cerca de 660 cidades chinesas têm menos água da que necessitam e 110 sofrem de graves carências. Segundo Ma Jun, especialista em águas, várias cidades perto de Pequim e Tianjin, na região nordeste do país, poderão ficar sem água dentro de 5 a 7 anos.

A crescente procura é parte do problema, mas é-o também o enorme desperdício. [...].

A poluição está também a ameaçar as fontes de abastecimento de água da China. As águas subterrâneas, que fornecem 70% do total de água potável do país, estão sob a ameaça de uma variedade de fontes, desde a poluição das águas à superfície, locais de deposição de resíduos a pesticidas e fertilizantes. Segundo uma nota da agência noticiosa governamental Xinhua, os aquíferos de 90% das cidades chinesas estão poluídos. Mais de 75% da água dos rios que passa por áreas urbanas é considerada imprópria para beber ou pescar, e o governo chinês considera cerca de 30% da água que corre pelos rios do país desadequada para a agricultura e a indústria. Em consequência, quase 700 milhões de pessoas bebe água contaminada com resíduos humanos e animais. O Banco Mundial concluiu que a incapacidade em fornecer plenamente 2/3 da população rural com água canalizada é a causa principal da mortalidade infantil até aos 5 anos e é responsável por tanto quanto 11% dos casos de cancro gastrointestinal.

[...].
Os líderes chineses estão também crescentemente preocupados acerca de como as alterações climáticas poderão exacerbar a situação ambiental doméstica. Na Primavera de 2007, Pequim publicou o seu primeiro relatório nacional de avaliação sobre as alterações climáticas, prevendo uma quebra de 30% na precipitação em três das sete maiores regiões fluviais da China – em torno dos rios Huai, Liao e Hai – e uma quebra de 37% nas produções de trigo, arroz e milho, na segunda metade do século. [...] E tanto cientistas chineses como internacionais avisam agora que devido à subida do nível do mar, Xangai poderá ser submersa em 2050.

Danos Colaterais

Os problemas ambientais da China estão já a afectar o resto do mundo. O Japão e a Coreia do Sul sofrem há muito os efeitos das chuvas ácidas provocadas pelas centrais eléctricas a carvão, e das tempestades de poeira vindas de leste através do Deserto de Gobi na Primavera, espalhando uma poeira amarela tóxica pelas suas terras. [...]. A agência dos EUA para a protecção ambiental (EPA) estima que em alguns dias, 25% das partículas na atmosfera em Los Angeles são originárias da China. Os cientistas também rastrearam os crescentes níveis de mercúrio no solo dos EU até às centrais eléctricas a carvão e às fábricas de cimento na China. (Quando ingerido em quantidades significativas, o mercúrio pode provocar deficiências congénitas e problemas de desenvolvimento)[notícia relacionada: Baby Born with Birth Defects Every 30 Seconds] . Calcula-se que 25 a 40% de todas as emissões de mercúrio no mundo vêm da China.

O que a China despeja nas suas águas está também a poluir o resto do mundo. De acordo com a ONG WWF, a China é agora o maior poluidor do Oceano Pacífico. [...] A China liberta cerca de 2,8 mil milhões de toneladas de água contaminada para o Bo Hai (mar ao longo da costa norte da China) e o conteúdo em metais pesados nas lamas no seu leito é agora 2.000 vezes superior aos próprios níveis de segurança oficiais. A apanha de lagostim caiu 90% nos últimos 15 anos. Em 2006, nas províncias pesadamente industrializadas do sudeste, Guangdong (Cantão) e Fujian, quase 8,3 mil milhões de toneladas de esgoto sem tratamento foi lançado no oceano, um aumento de 60% face a 2001. Mais de 80% do Mar da China Oriental, um dos maiores bancos de pesca do mundo, está agora classificado como impróprio para a pesca, face a 53% em 2000.
Além disso, a China já está a atrair a atenção internacional pela sua rapidamente crescente contribuição para as alterações climáticas. De acordo com um relatório de 2007 da Agência Holandesa de Avaliação Ambiental, a China já ultrapassou os EUA como maior contribuidor mundial de dióxido de carbono, um dos principais gases com efeito de estufa, para a atmosfera. A não ser que a China repense a sua utilização das várias fontes de energia e adopte tecnologias de ponta eco-eficientes, alertou Fatih Birol, economista-chefe da Agência Internacional da Energia, em 25 anos a China emitirá o dobro de dióxido de carbono que todos os países da OCDE combinados.

Os parceiros económicos da China no mundo em desenvolvimento enfrentam um fardo adicional resultante das suas actividades económicas. As multinacionais chinesas, que exploram recursos naturais em África, América Latina, e Sudeste Asiático de forma a alimentar a continuada ascensão económica chinesa, estão a devastar os “habitats” destas regiões nesse processo. A fome chinesa por madeira explodiu na última década e meia, e particularmente desde 1998, quando inundações devastadoras levaram Pequim a impor restrições no abate doméstico de árvores. A importação de madeira pela China mais que triplicou entre 1993 e 2005. Segundo o WWF , a procura da China por madeira, papel e pasta de papel irá provavelmente aumentar cerca de 33% entre 2005 e 2010.
A China é já o maior importador do mundo de madeira abatida ilegalmente : uns estimados 50% das suas importações de madeira são reportadas ilegais. O abate ilegal é especialmente prejudicial para o ambiente porque atinge frequentemente florestas raras e antigas, faz perigar a biodiversidade e ignora práticas florestais sustentáveis. Em 2006, o governo do Cambodja, por exemplo, ignorou as suas próprias leis e atribuiu à companhia Wuzhishan LS Group uma concessão de 99 anos que era 20 vezes maior que o tamanho permitido pela lei cambodjana. As práticas da empresa, incluindo a dispersão de grandes quantidades de herbicida, desencadearam repetidos protestos por parte da população local. Segundo a ONG internacional Global Witness, as companhias chinesas destruiram grandes porções da floresta ao longo da fronteira Sino-Birmanesa e estão agora a deslocar-se em direcção ao interior das florestas da Birmânia em busca de madeira. Em muitos casos, a actividade de abate ilícito decorre com o apoio activo de funcionários locais corruptos. Funcionários dos governos centrais da Birmânia e da Indonésia, países onde os madeireiros da China são activos, protestaram contra tais práticas, mas as melhorias foram limitadas. Estas actividades, juntamente com as das companhias mineiras e de energia, levantam sérias preocupações ambientais para muitas populações locais do mundo em desenvolvimento.

Na perspectiva dos líderes chineses, contudo, os danos ao ambiente em si mesmos são um problema secundário. Reveste de maior preocupação para eles os seus efeitos indirectos: a ameaça que colocam à continuação do milagre económico chinês e à saúde pública, estabilidade social, e reputação internacional do país. Tomados em conjunto, estes desafios poderiam minar a autoridade do Partido Comunista.
Os líderes chineses estão peocupados acerca do impacto do ambiente sobre a economia[notícia realcionada: China Announces $14.5B Lake Cleanup] . Vários estudos conduzidos quer dentro, quer fora, da China, estimam que a degradação ambiental e a poluição custam à economia chinesa entre 8 a 12% do PIB por ano. Os meios de comunicação social da China publicam frequentemente os resultados de estudos sobre o impacto da poluição na agricultura, na produção industrial ou na saúde pública: poluição da água custa 35.8 mil milhõesde dólares (mm$) ano, poluição do ar custa 27.5 mm$ e mais e mais, com os desastres climáticos (26.5 mm$), as chuvas ácidas (13.3 mm$), a desertificação (6mm$), ou culturas danificadas pela poluição dos solos (2.5mm$). A cidade de Chongqing, nas margens do rio Yangtze, estima que lidar com os efeitos da poluição da água na sua agricultura e na saúde pública custa tanto quanto 4.3% do PIB anual da cidade. A província de Shanxi tem visto os seus recursos em carvão carburar o resto do país ao passo que paga o preço com as árvores enfezadas, o seu ar e água contaminados e o afundamento das suas terras (land subsidence). As autoridades locais estimam os custos da degradação ambiental e da poluição em 10.9% do PIB anual da província e pediram a Pequim compensação para a província pela sua “contribuição e sacrifício”.
O Ministério Chinês da Saúde Pública está também a soar o alarme com crescente urgência. Num inquérito a 30 cidades e 78 distritos, tornado público na Primavera, o ministério atribuía à crescente poluição do ar e da água o dramático aumento por todo o país da incidência do cancro: um aumento de 19% nas áreas urbanas e de 23% nas áreas rurais desde 2005. Um instituto de pesquisa afiliado da SEPA colocou o número total de mortes prematuras na China causadas por doenças respiratórias relacionadas com a poluição do ar em 400.000 por ano. Mas esta pode ser uma estimativa conservadora : segundo um projecto de pesquisa conjunto entre o Banco Mundial e o governo chinês publicado este ano, o número total de tais mortes é de 750.000 por ano. (Diz-se que Pequim não quis divulgar este último número por receio de que incitasse à inquietação social).
Menos bem documentado, mas potencialmente ainda mais devastador, é o impacto sobre a saúde da poluição da água na China. Hoje, 190 milhões de chineses estão doentes por beberem água contaminada. Ao longo de todos os grandes rios chineses, as aldeias relatam grandes aumentos das taxas de doenças ligadas à diarreia, cancro, tumores, leucemia, etc.
A inquietação social em relação a estes assuntos é crescente. Na Primavera de 2006, um alto funcionário do ambiente, Zhou Shengxian, anunciou que houve 51.000 protestos relacionados com a poluição em 2005, o que corresponde a cerca de 1.000 protestos por semana. As queixas dos cidadãos acerca do ambiente, expressas através de linhas de contacto oficiais ou por carta a funcionários locais, têm aumentado a uma taxa de 30% ao ano; Provavelmente ultrapassarão as 450.000 em 2007. Mas poucas terão uma resolução satisfatória, de maneira que pelo país fora um número crescente de pessoas protesta nas ruas. Durante vários meses em 2006, por exemplo, os residentes de 6 aldeias vizinhas na província de Gansu mantiveram protestos repetidamente contra as fundições de zinco e ferro que eles acreditavam estar a envenená-los. Metade dos 4.000 a 5.000 aldeões exibiam doenças relacionadas com o chumbo, variando da deficiência em vitamina D a problemas neurológicos.
Muitas das manifestações são relativamente pequenas e pacíficas. Mas quando falham, os manifestantes recorrem por vezes à violência. Após tentarem durante 2 anos obter compensação, através de petições ao nível local, provincial e mesmo junto de funcionários do governo central, pela suas colheitas estragadas e ar envenenado, na Primavera de 2005, 30.000 a 40.000 aldeãos da província de Zhejiang invadiram 13 fábricas químicas, partindo janelas, derrubando autocarros, atacando funcionários do governo e incendiando carros da polícia. O governo enviou 10.000 membros da “Polícia Armada do Povo” em resposta. Foi ordenado o encerramento das fábricas, e vários activistas ambientais que tentaram monitorizar o cumprimento da ordem foram mais tarde detidos. Em geral, os líderes chineses têm conseguido evitar - ainda que por vezes violentamente – que o descontentamento em relação aos problemas ambientais se propague para além das fronteiras provinciais ou se transforme em exigências de mais amplas reformas políticas. [...]

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terça-feira, outubro 30, 2007

Apresentação de James Lovelock na Royal Society


Climate Change on the living Earth.

«Observations from around the Earth suggest that even the gloomiest predictions of climate change from
the 2007 IPCC report may underestimate the seriousness of the changes due this century.»
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quarta-feira, outubro 24, 2007

terça-feira, outubro 23, 2007

Os problemas energéticos: uma das maiores ameaças deste século

O Conselho InterAcademias, que reúne as academias de ciências de todo o mundo, alertou que os desafios em torno do problema da energia colocam um dos maiores perigos à Humanidade neste século, salientando o perigo das guerras pelo controlo de combustíveis fósseis como o petróleo e os problemas relacionados com as alterações climáticas. Ver notícia aqui.
No relatório "Lighting the Way: Toward a Sustainable Energy Future" afirma-se que o rumo actual é insustentável e analisam-se as opções do hidrogénio, biocombustíveis, nuclear, etc. Muitas destas tecnologias não resolverão por si nenhum problema. Há um forte incentivo ao desenvolvimento das energias renováveis, mas afirma-se que é necessário combater o desperdício e a ineficiência. Para tudo isto é absolutamente essencial uma conjugação de esforços a nível internacional, sem a qual nenhuma solução poderá ser encontrada. Quem pense, por exemplo, que é possível vedar à China o acesso ao petróleo e gás natural sem daí advirem problemas graves para o resto do mundo, não está ciente de que isso só levará a China a usar ainda mais carvão para as suas necessidades energéticas, com as consequências que se conhecem sobre o clima e a necessidade urgente de reduzir as emissões de CO2.
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domingo, outubro 21, 2007

Perspectivas para o preço do petróleo: 100 US$ no fim do ano?

A semana passada o petróleo ultrapassou os 90 dólares por barril no mercado americano:
Crude Oil Breaches $90 a Barrel on Dollar Drop Against Euro
Ainda há dias, 3 de Outubro, o presidente da Partex, apesar de alertar para os problemas energéticos que se avizinham, afirmava, segundo o Jornal de Negócios, que o preço do “Petróleo nos 100 dólares por barril daqui a 2 anos”.
Segundo os entrevistados nestes vídeos, é bem possível que se atinjam aqueles valores em 2 meses.

Esta escalada recente tem razões conjunturais, como a possibilidade de incursão do exército turco no Curdistão iraquiano para retaliar contra o PKK, desestabilizando a única região do Iraque estável e detentora de grandes reservas de petróleo. Outros factores de natureza geopolítica são também muito importantes. Mas parecem já fazer-se sentir razões de natureza ainda mais fundamental. A produção não tem crescido nos últimos dois anos (apesar do aumento do investimento) ao passo que a procura não cessa de aumentar. Há mesmo quem diga que a produção global de petróleo já atingiu o pico e que daqui por diante manter-se-á estável por uns tempos e depois declinará rapidamente. Ver aqui e aqui.
Ver mais aqui.

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Oil on The Rise (Again)

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Pickens: $100-a-Barrel Oil on the Way

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sexta-feira, outubro 12, 2007

A Vingança de Gaia - James Lovelock


Um livro sobre a Terra e o abuso que o Homem está a cometer sobre ela. O cientista que desenvolveu a Teoria de Gaia (Deusa grega da Terra), James Lovelock, compara a Terra a um organismo vivo que se autoregula, punindo aqueles que violam o seu equílibrio delicado, desenvolvido ao longo de milhões de anos. Essa punição poderá ser severa para a Humanidade.
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quarta-feira, outubro 10, 2007

Dia da Dívida Ecológica - Ecological Debt Day



No dia 6 de Outubro assinalou-se o Dia da Dívida Ecológica, a data a partir da qual o mundo passou oficialmente a viver acima dos seus meios (ver notícia do Telegraph).
Só para exemplificar, segundo o "think-tank"
New Economics Foundation, se todos os habitantes da Terra tivessem os mesmos padrões de consumo dos norte-americanos, seriam necessários 5,3 planetas Terra para os manter, sendo de 3,1 para a França e Grã-Bretanha, 3 para a Espanha, 2,5 para a Alemanha e 2,4 para o Japão. A adopção das taxas de consumo da China, apesar de todo o seu crescimento económico, ainda seria comportável nos limites do planeta, 0,9 (Ver aqui). No entanto, como sabemos, países como a China e a Índia aspiram legitimamente a níveis de vida superiores, sendo de esperar um agravamento da Dívida Ecológica. Manifestamente temos que repensar os nossos modelos de consumo, caso contrário deparar-nos-emos com o colapso.


"The world will no longer be divided by the ideologies of 'left' and 'right,' but by those who accept ecological limits and those who don't."


Wolfgang Sachs, Wuppertal Institute



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sábado, setembro 08, 2007

"Vida fora de controlo" - as consequências das plantas e animais geneticamente modificados



Life running out of control - consequences of genetically modified plants and animals

Este documentário pôde ser visto na SIC Notícias (deve repetir).

Sobre o mesmo assunto dos transgénicos ou OGM's, organismos geneticamente modificados, ler esta entrevista ao Prof. Séralini (investigador em biologia molecular, autor de "Génétiquement incorrect", "Ces OGM qui changent le monde", entre outras obras)

Ver a este propósito, este engraçado e mordaz vídeo "The Colbert Report - Milk & Hormones" da Comedy Central.

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sábado, setembro 01, 2007

Os transportes públicos: que critério de eficiência?



Quando se avalia a eficiência das empresas de transporte público, o lucro ("Lucro das empresas públicas cresceu 4 vezes") não deve ser a variável essencial da análise (1). E isto porquê?
O transporte público tem várias finalidades. Uma delas é proporcionar mobilidade a custo razoável para largos segmentos da sociedade que de outro modo dificilmente teriam capacidade para se deslocarem para o trabalho, para a escola, para o centro de saúde, etc.. Ou seja, tem um fim social (se bem que, mesmo neste caso, a dimensão económica seja também muito importante: uma cidade imóvel não pode ser competitiva).


Mas o transporte público cumpre também outros papéis.


O crescimento dos grandes centros urbanos traz consigo o congestionamento de tráfego, o consumo de enormes quantidades de combustíveis fósseis (Diário Económico: “Portugal desperdiça 60% da energia que consome” ;“a actual estrutura de consumo portuguesa faz com que cada aumento de um dólar no preço do barril implique uma subida da factura energética à razão de 140 milhões de dólares por ano”) até problemas de saúde relacionados com a poluição atmosférica.
Estes problemas estão associados sobretudo à utilização do automóvel como meio privilegiado de mobilidade. Inerentes a cada um destes problemas estão associados custos difusos (
externalidades negativas) que, embora de difícil quantificação, deviam de algum modo entrar para a demonstração de resultados das empresas prestadoras de transporte público. Ou seja, se os custos difusos da mobilidade em automóvel particular fossem tidos em conta, por cada pessoa que mudasse para o modo de transporte público (2), a respectiva empresa transportadora deveria ter uma compensação (real ou fictícia, neste último caso apenas para aferir da tal eficiência ou utilidade do serviço prestado). Infelizmente, nestes tempos de liberalismo fundamentalista e iliteracia económica gritante em tantos dirigentes e formadores de opinião, este tipo de abordagem não tem grande adesão.

No entanto, com o advento do Protocolo de Quioto e a urgência de combater as alterações climáticas, foi posta em prática a avaliação económica da poluição, com a atribuição de um valor monetário à tonelada de CO2e (unidade que resulta da conversão do efeito de estufa de outros gases).(3)

Por exemplo, o Relatório Stern sobre a economia das alterações climáticas ("Stern Review on the economics of climate change", 2006) atribui um custo social (no sentido de custo para toda a sociedade, o tal custo difuso) ao CO2 equivalente a cerca de 85 dólares (63€): «Each tonne of CO2 we emit causes damages worth at least $85, butemissions can be cut at a cost of less than $25 a tonne.» Ver notícia aqui.

A um nível mais limitado, o do comércio de emissões de CO2, este tem uma cotação diária que sofre oscilações mas que já atingiu valores superiores a 30€.


Ou seja, para as empresas dos sectores que foram obrigados a aderir ao CELE (Comércio Europeu de Licenças de Emissão), os custos da poluição já entram efectivamente nas demonstrações de resultados e a tendência será para aumentarem, com as negociações Pós-Quioto (após 2012) a exigirem reduções de emissões mais severas (
Comissão Europeia propôs uma redução unilateral de GEE para UE de 20% até 2020).

Deste modo, o transporte público assume uma importância económica acrescida e devia ser objecto de orientação política estratégica (aqui, o caso de Helsínquia). Deviam ser fixados objectivos para a redução do tráfego automóvel considerando até, para a sua prossecução, a hipótese da gratuitidade (ou quase gratuitidade; é evidente que a gratuitidade seria apenas para os passes sociais; viajantes ocasionais, como turistas, continuariam a pagar) do transporte público sem prejudicar a sua qualidade. Os custos teriam evidentemente que ser cobertos via Orçamento de Estado e/ou receitas municipais (provenientes da cobrança de, por exemplo, portagens urbanas, coimas, etc.).

Num país onde o apego ao automóvel é muito grande e os preços dos passes sociais não são despiciendos (exemplo de tarifários de passes intermodais – região de Lisboa; para muitos, a despesa com o passe poderá representar mais de 10% do seu rendimento mensal!), existe frequentemente um desincentivo real para a utilização do transporte público (por exemplo, o número de passageiros transportados pela Carris no último quinquénio foi sempre a descer). De modo que, por todas as razões enunciadas, a hipótese da gratuitidade, ainda que transitória, merece a devida consideração numa "estratégia de choque" para alterar a situação presente.

Existe o preconceito de que o serviço público, sobretudo se fôr gratuito, tem tendência a perder qualidade. Ora, a privatização de transportes públicos , nomeadamente do transporte ferroviário, noutros países (Ler "Privatização dos transportes públicos ferroviários" de Miguel B. Araújo, do blogue Ambio), revelou o contrário quanto aos padrões de qualidade do serviço. De qualquer modo, em termos da aferição da eficiência da gestão e prestação do serviço, a qualidade teria que ser sempre uma das variáveis a considerar. Para isso também é fundamental a qualidade dos gestores nomeados para as administrações.

Notas:

(1) Isto não quer dizer que seja irrelevante olhar para os custos operacionais das empresas de transporte. Uma boa gestão é absolutamente fundamental. A este propósito, ler este artigo de Nuno Ribeiro da Silva. Acho apenas que campanhas de "marketing", embora importantes, sem dúvida, não chegam.

(2) - Transporte Colectivo de Passageiros versus Transporte Individual

«As vantagens do Transporte Colectivo de Passageiros versus Transporte Individual são evidentes, tendo em conta que os indicadores por passageiro x km, a nível energético e ambiental são, comprovadamente, muito inferiores.
A título de exemplo:
O automóvel consome, em média, 3 a 4 vezes mais energia primária por passageiro x km transportado, que o autocarro.
As emissões de dióxido de carbono (CO2) por passageiro x km são, em média, 3 a 4 vezes superiores para o automóvel, relativamente ao autocarro. Numa análise quantitativa, as emissões poluentes por passageiro x km do automóvel são, pelo menos, 10 vezes mais do que as do autocarro.» Fonte: Carris

(3) - O cálculo das emissões de CO2 dos transportes não oferece dificuldades de maior. Um conversor como este, resolve o problema.


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